quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Como Publicar um Livro na Internet
Conhece aquele ditado: “Há três coisas que todo ser humano deve fazer na vida para se sentir realizado: escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore”? Pois é, faço parte dessa turma. No início de 2014 achei que era hora de começar a escrever. Avaliei algumas opções para publicação e acabei optando por uma independente (self publishing).
Acabei encontrando o espetacular site de publicação independente LeanPub. O primeiro aspecto que achei fantástico foi poder fazer o lançamento de maneira “lean”. Isso quer dizer que é possível testar o mercado muito antes da conclusão do trabalho. O site provê uma “landing page” na qual você pode perguntar quanto as pessoas estariam dispostas a pagar. Fiz o lançamento depois de terminar o primeiro capítulo do App Engine e Python, você programa e o Google escala! Foi muito motivador fazer a primeira venda. Com certeza dá muito mais energia para escrever mais.
Outra funcionalidade fantástica é a geração do livro. Após o cadastro da conta o site compartilha uma pasta com você através do Dropbox. Dessa forma não há necessidade de se fazer upload e dowload. Ela contém os arquivos para geração do livro. O formato de escrita é o Markdown. Ou seja, para quem está acostumado a editar esse tipo de arquivo no GitHub, a curva de aprendizado é super suave. Com apenas um clique você tem a geração em formato epub, mob e pdf. É muito estimulante poder ver seu trabalho em um leitor eletrônico como o Kindle.
A simplicidade na geração do material é tanta que pensamos em fazer um teste no Python Pro. Começando pelo App Engine Fundamental, vamos ver se funciona fornecer as várias versões como material de apoio ao curso. Dessa maneira o aluno aprende com aulas ao vivo, exercícios e mais o livro para se aprofundar.
Enfim, tem vontade de escrever sobre algum assunto? dificuldade para publicar não é mais desculpa!
Se você gostou desse artigo, ajude um escritor independente curtindo a fan page: https://www.facebook.com/pythonappengine.
Até o próximo artigo.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Screencast no Linux
Screencast no Linux
Depois que comecei a fazer o curso AppEngine e Python: você programa e o Google escala!,
muita gente me perguntou como eu estava fazendo o screencast no
Linux. Então vou comentar as ferramentas que estou utilizando e
algumas que usei, mas não funcionaram bem.
Qualidade do áudio
A primeira coisa que você deve prestar
atenção quando for gravar screencast é o aúdio. Os microfones dos
laptops atuais servem para você conversar no Skype ou Hangout. Já
para gravação deixam a desejar, por conta dos ruídos e chiados.
Para resolver esse problema, comprei um microfone USB da Microsoft
(Obs: o hardware da M$ costuma ser muito bom, apesar do Windows =P).
Como a entrada de microfone comum (p2) costuma não ser muito boa
para captação, escolhi esse modelo USB.
Captura de vídeo
Inicialmente eu tentei utilizar o
Record my Desktop
mas houve problemas. Ele grava utilizando a extensão ogv e o arquivo
fica enorme. Além disso, na hora de fazer recortes durante a edição,
o aúdio ficava dessincronizado com o vídeo. E quanto maior o
recorte, pior ficava, inviabilizando o seu uso.
Existe também a opção de linha de
comando que meu amigo Tony Lâmpada postou em seu
blog.
Mas ainda sim pode ser problemático se você estiver usando um
monitor adicional.
Por fim o programa que estou usando
hoje é o Kazam .
Ele já possui opção de fazer o encoding em mp4; permite fazer o
setup dos inputs de aúdio e vídeo, em termos harware; quadros por
segundo e também que se faça o screencast de uma porção limitada
da tela. Disparado o melhor que econtrei.
Edição de vídeo
Para edição, estou utilizando o
Kdenlive.
A interface de edição dele é simples e lembra um pouco a interface do
do Camtasia, apesar de não ter tantos recursos. Mas para recortes é
perfeito.
Screenshot
Apesar de não ter relação direta com
vídeo, uso o Shutter
para fazer screeshots. Ele permite fazer a captura de uma janela
específica, economizando o tempo de você ter que recortar a imagem.
Possui também recurso de timer para que você possa fazer a captura
de acesso a menus de contexto de programas, o que é impossível
apenas utilizando o printscreen.
Enfim, se o software era sua desculpa
para não gravar aquele curso bacana que está na sua cabeça, agora
isso não é mais problema.
Abraços e até o próximo post.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Google App Engine: a história de um prisioneiro feliz
No início de 2009 eu trabalhava em uma
startup com Java, utilizando frameworks muito conhecidos da
plataforma, como Spring e Hibernate. Decidi então, no fim do ano,
construir um site de transmissão de fotos, visando entender todo o
processo de desenvolvimento.
No início, comecei a fazer o setup
análogo ao que já conhecia: instalei Maven e Nexus, comprei um host
Java. Demorei cerca de um mês, utilizando meu tempo livre, para configurar todas ferramentas. Mas a aplicação iria transmitir
muitas fotos pelas rede, meu cliente pretendia fazer promoções em
sites de compras coletivas. Eu estava certo de que meu servidor não iria
aguentar essa carga.
Foi justo nessa época que um amigo me apontou a solução. Ele comentou que o Google
tinha criado um serviço, App Engine (GAE), que resolveria meu
problema. Ele fornecia um ambiente de desenvolvimento e deploy
simples, prometendo escalar sua aplicação automaticamente.
Para me convencer sobre o poder do GAE ele fez uma demosntração: em 5 minutos no almoço criou
uma aplicação Hello World do zero e fez o deploy. Realmente fui
convencido e a partir daquele momento passei a utilizar a plataforma.
Nascia assim a primeira versão do site, após 3 meses de
desenvolvimento, que se chamava Revelação Virtual.
O que permitiu o rápido
desenvolvimento foram as facilidades que a plataforma possuía.
Diferente do ambiente Java comum, toda documentação
se encontra centralizada e existe API para resolver vários problemas
comuns do desenvolvimento web, como envio de email, upload e download
de arquivos, filas de tarefas, entre muitas outras funcionalidades.
Mas como qualquer escolha em
tecnologia, sempre existem dificuldades. A maior delas é que o
ambiente do GAE é muito particular, impondo restrições para que a
plataforma possa realmente escalar de forma automática.
Como maior exemplo de restrição, cito
o Big Table,
banco de dados NoSQL distribuido. Nele não é possível fazer join e
as pesquisas são limitadas. Ou seja, não existem diversas operações
comuns aos bancos tradicionais. Sendo assim, para programar nessa
plataforma são necessárias várias mudanças de paradigma para quem
já programa em um ambiente mais ortodoxo.
E foi por conta dessa forma de
funcionamento particular do GAE que me vi obrigado a alterar todo o
backend de Java para Python. Por conta do problema de cold start
os clientes sofriam com uma grande latência da aplicação quando
uma nova instância era necessária. Acabei testando o Python e
resolvendo o problema construindo o microframework
Zenwarch
para carregar a aplicação web de forma preguiçosa. Mais do que apenas resolver o problema, acabei percebendo que o desenvolvimento em Python era muito mais produtivo e acabei me aprofundando em seu estudo.
Por conta dessa mudança, passei a
frequentar a comunidade Python e suas conferências. Para minha
surpresa, muitos pythonistas não conhecem a plataforma, sendo poucos
os que a usam para sistemas em produção. A maioria usa o framework
DJango e servidores linux, sendo necessário instalar toda a base
para o website, como NGinx, Gunicorn, SupervisorD e outras
ferramentas. Acabei aprendendo um pouco sobre essa estrutura
trabalhando na empresa ZNC, justamente para poder compará-la com a
estrutura do GAE.
Durante esse período na ZNC, pude
constatar o grande poder que o Django fornece ao desenvolvedor,
principalmente através dos painel de administração. Contudo,
considerei a curva de aprendizado do framework em si relativamente
alta. Além disso, as ferramentas necessárias para se poder fazer um
deploy com um clique tornam todo o processo muito
complexo. Definitivamente a simplicidade da plataforma do Google me
deixou "mal acostumado". Ou melhor, me deixou “bem acostumado”.
Mas além da simplicidade, outro fator
fundamental me faz preferir o GAE: o preço. A plataforma oferece uma
cota grátis de uso que se renova diariamente. Isso permite que se
teste o site sem haver necessidade de investimento, até que ele
ganhe tração. Mais do
que isso, você paga pelo que realmente utiliza. Ou seja, se o
tráfego diminui, também cai o seu custo.
Mas durante minhas discussões com
amigos em favor da plataforma, havia sempre um argumento difícil de refutar: o chamado lock in. Ou seja, ao utilizar o
serviço do Google, você acaba por se tornar prisioneiro da
plataforma por causa do uso de suas bibliotecas e APIs personalizadas. Meu
amigos sempre me alertaram que se o Google alterasse sua política de
preços, eu ficaria refém do serviço, por não poder portá-lo para
outro lugar.
Minha única justificativa, no início,
era de que durante esses 3 anos a empresa nunca havia mudado sua
política de preços de forma que eu fosse afetado
significativamente. Sempre eu comentava sobre o custo irrisório do
serviço, respondendo para o pessoal com o título desse post: sou um
prisioneiro feliz.
Hoje o lock in não é mais um verdade absoluta.
Existe o projeto de código aberto App Scale
que permite a migração de sua aplicação para outras
infraestruturas. Mas realmente até hoje não portei nenhuma, apesar de saber que já conseguiram portar com sucesso a aplicação do QMagico usando esse projeto. Além dele, existe também o CapeDwarf.
O fato é que em minha última conversa
sobre o assunto com amigos me incentivaram a contar mais sobre essa
experiência. Decidi então escrever esse post e ir além: no início
2014 farei um curso, com vídeos gratuitos, sob o título “Python e App Engine:
você programa e Google escala!”. Quem sabe não consigo outros
prisioneiros felizes como companheiros.
Atualização: já iniciei o curso no fim de 2013, confira nessa playlist do Youtube.
Atualização: já iniciei o curso no fim de 2013, confira nessa playlist do Youtube.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Participação em Startups
O tema Startup tem surgido muito na imprensa e está relacionado massivamente à empresas de TI com possibilidade de crescimento vertiginoso. Em listas de e-mail ligadas ao assunto é muito comum encontrar diversas pessoas procurando um sócio técnico para desenvolver o produto. É justamente aqui que vou focar esse post, postando sobre a participação em termos de porcentagem. Você pode fazer análise para avaliar um cargo de Diretor de Tecnologia, também chamado de CTO (Chief Technology Officer). Mas a análise é genérica e serviria para qualquer outro sócio.
Para contextualizar, conto um pouco da minha vivência sobre o assunto: eu sempre gostei de empreendedorismo. Depois de 6 meses de formado, trabalhei em cada ano subsequente em uma empresa diferente: uma startup ligada ao setor de saúde, um curso de design e programação web próprio e por último em uma startup do setor de educação. Nessa última, chamada QMagico, fui CTO.
Durante as negociações com o QMagico, e mesmo depois que sai da empresa, já recebi várias propostas para trabalhar em startups. Eu já tinha pesquisado um pouco sobre definição de participação nesse tipo de empresa e em uma dessas ocasiões, decidi colocar em prática uma metologia para calcular minha participação. Como chegar em um valor para uma empresa nascente é difícil, decidi por utilizar o chamado “Custo de Oportunidade” para chegar em minhas conclusões.
De acordo com a Wikipedia, esse conceito pode ser assim definido: “O custo de oportunidade é um termo usado em economia para indicar o custo de algo em termos de uma oportunidade renunciada”. Ou seja, para se chegar em valuation para a empresa que ainda não tem um histórico financeiro a ser analisado, escolhi calcular seu valor de acordo com o custo de oportunidade dos envolvidos, bem como todo investimento que já tenha sido feito (Link para planilha):
Abaixo segue a explicação da planilha.
Salario de mercado
Esse é o custo de oportunidade mensal de um colaborador. Ou seja, quanto se está deixando de ganhar para entrar na empresa. É interessante notar que o trabalho em uma Startup não é igual ao de mercado: Muitas vezes você vai ter que trabalhar muito mais, fazendo “hora extra”, é pago via pro labore + divisão de lucros. Não existe décimo terceiro, às vezes nem férias. Por isso, ao calcular seu salário de mercado, acrescente a ele de 20 a 100%, de acordo com os benefícios que você vai abrir mão.Salário Startup
Esse é valor que você vai receber durante o período. É subtraído do salário de mercado para se chegar no seu custo de oportunidade mensal.Investimento Startup
Aqui constam todos os valores investidos na empresa, seja em dinheiro ou material. Esse valor será acrescentado ao valuation da empresa, junto com o custo de oportunidade de todos os sócios.Vesting
Para fazer jus à sua participação, principalmente se entrar em uma a empresa depois da fundação, é comum aplicarem um período de 5 anos de vesting. Isso visa mitigar os riscos para a startup. Simplificando, se você fizer jus a 20% ao final do período de vesting, você ganharia o mesmo em parcelas de 4% a cada ano. E apenas ao fim do período, o que se chama de período de cliff.Entendendo as contas
Para se chegar ao valor da empresa, todos os sócios devem calcular seu custo de oportunidade que será investido durante o período de vesting. Sócios que estão há mais tempo devem acrescentar esse período para aumentar seu custo de oportunidade final e, consequentemente, sua participação. Ao custo de oportunidade é somado o valor que cada sócio colocou em dinheiro ou material. Fazendo essa soma, é obtido o valor do Valuation Atual, a partir do qual a participação dos sócios é definida proporcionalmente ao seu investimento.A célula Custo de Oportunidade, à direita, contém a soma do custo durante o período de vesting, mais o valor que por ventura for investido pelo sócio. Abaixo dela, na célula de equity, consta a participação porcentual do sócio.
Nas células abaixo das mencionadas foi considerado um fator de multiplicação que tem a ver com mesma expectativa de um investidor anjo: ter seu investimento multiplicado de 10 a 100 vezes no período de 5 anos. Quando eles não enxergam uma saída dessa magnitudade, não costumam investir. Se no plano de negócio a análise não chegar no valor que se espera ganhar, aí talvez não valha à pena participar.
E mesmo quando a análise chegue nesse valor, é recomendável tomar cuidado com os deslumbramentos de empreendedores. Ser ambicioso é bom, mas manter os pés no chão também o é. O site http://dealbook.co contém várias informações sobre operações de investimento e compra de startups brasileiras durante os últimos tempos. Assim, quando vejo previsões de vendas que em apenas 2 anos passam até dos valores pelos quais empresas já estabelecidas, como Buscapé, foram adquiridas, passo a duvidar da qualidade da análise feita.
Conclusões
Existem diversos processos de definição de participação em startups e eu quis mostrar o que para mim faz mais sentido. Já cheguei a discutir isso certa vez quando recebi uma proposta. Com essa mesma análise, tinha chegado à conclusão que minha participação na empresa seria de 33%. Fui contestado, pois me ofereciam 10%. Diziam que a minha pedida “não fazia sentido”. Respondi, então, que me mandassem uma planilha, como fiz, explicando como chegaram no valor de 10%. Obviamente não mandaram, 10% é uma “praxe” de mercado, mas é uma em que não entro de jeito nenhum, pois além do trabalho ser desgastante, raramente vai compensar financeiramente, mesmo que a startup dê muito certo. Segue esse post que fala sobre o assunto:http://www.financialsamurai.com/2013/10/18/the-startup-riches-myth-selling-for-millions-and-being-rich/
Outra questão é que às vezes, como já aconteceu comigo, se escolhe por trabalhar em uma startup por outras razões: flexibilidade, clima divertido com amigos, oportunidade de tomar decisões ou liderar um time. Todas elas são válidas. Mas mesmo que você decida emocionalmente, fica a dica de fazer uma análise financeira racional, seja pela simples planilha que apresentei ou outra metodologia. Isso o faz entrar no negócio mais consciente.
Enfim, deixe seu comentários e também links interessantes que possam ajudar outras pessoas a pautarem suas decisões.
Abs,
Renzo Nuccitelli
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Quanto você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 6
Algumas vezes o Universo resolve testar
a sua resiliência, e foi isso que aconteceu comigo no ano de 2003.
Eu terminei o último post dizendo que ao chegar em casa, minha mãe
só me apoiou. Mas apesar disso, foi uma noite extremamente mal
dormida. Eu simplesmente não consegui assimilar a expulsão.
Mas eu não ia sair sem lutar. Entramos
em contato com a Solanger, tia do Bruno, para vermos como seria para
entrarmos na justiça. Eu liguei para muitos tinham sido também
“licenciados a bem da disciplina”. Os que quiseram participar da
empreitada foram: Máximo, Jurandir e o Rodrigo. Engraçado que o
último já estava conformado com a situação mas, por alguma razão,
ele mudou de ideia e quis entrar também na briga, para minha sorte.
Contamos à advogada o ocorrido e eu
tinha certeza que a justiça seria feita. Dois alunos da turma 99, um
deles o Ericsson, tinham conseguido reverter suas expulsões por
conta de trote violentos um ano antes, e isso nos dava confiança.
Afinal, se nem trote era o que tinha nos expulsado, lógico que
conseguiríamos reverter a situação. Apesar disso, precisávamos de
um plano B.
Foi então que o Jurandir sugeriu
fazermos cursinho para escolas militares. Ele tinha comentado que na
Tijuca havia pelo menos 4 deles: Planck, Roquette, Ponto de Ensino e
PH. Durante o Naval eu tinha pensado em fazer engenharia, então
achei uma boa, já que os cursos preparavam para IME e ITA. O
problema é que eu não tinha dinheiro para pagar os cursos.
Não bastasse isso, durante aquela
semana eu descobriria que também não teria onde morar. Durante o
ano de 2002 eu estava indo tanto para a casa da minha tia que passei
a ajudar no aluguel. Como não podia mais colaborar no fim mês,
seria impossível continuar na minha tia. Foi difícil não poder
contar nem com a família num momento delicado.
Mas então começamos a procurar os
cursos e fazer provas de bolsa. Conseguíamos no máximo 20% de
desconto. Quando íamos conversar sobre a mensalidade e falavam do
desconto, eu perguntava quando daria a mensalidade: “Vai ficar
apenas R$ 600,00”. Eu fazia sempre o mesmo discurso depois dessa
notícia: “Eu fui aluno do Colégio Nava, era o 24o da
minha turma. Portanto, vou passar nos concursos, independente de qual
seja. Só que ainda não tenho nem lugar para morar no RJ, então não
consigo pagar esse valor, o que é possível de se fazer?”. Aí eu
sempre ganhava um “super desconto” de 30% ao qual eu sempre ria e
falava: “Acho que você pensa que estou brincando quando digo que
não tenho nem lugar para morar”.
Mas enfim, ficamos indo e voltando em
cada curso tentando descontos maiores. Nesse processo, acabamos
encontrando o Haikal, que desde o terceiro ano de CN já tinha
decidido fazer IME/ITA. Ele conseguiu uma boa promoção no Ponto de
Ensino (PEnsi): ex-alunos do CN pagariam a matrícula e teriam 90% de
desconto na mensalidade. Mesmo aquele valor de R$ 60,00 eu não sabia
como iria pagar, mas pensei que isso seria o máximo que
conseguiríamos. Aquilo foi uma festa. Teve gente que nem era do CN,
tinha apenas feito curso Martins com a galera em 99, mas mesmo assim
conseguiram também o desconto. Enfim, acho que o PEnsi ainda estava
em seu início e devia ainda ter muita vaga ociosa.
Nessa época de negociações eu me
aproximei bastante do Rodrigo. Como ele morara longe e eu tinha
carro, a gente sempre ia junto procurar pelo curso. Então começamos
a frequentar juntos o PEnsi e por conta disso, eu estava dormindo na
casa dele. Minha mãe também estava dormindo lá, mas já estava
procurando um emprego de doméstica onde dormisse no emprego e,
assim, pudesse pagar o meu curso. Vê-la tendo que fazer isso naquele
período da vida foi uma barra.
Mas então na quarta-feira recebemos
uma ligação da Denise, dona do Roquette. Ela falou que tinha
conseguido uma bolsa. Perguntei quanto ficaria, ela respondeu R$
100,00. Nós tínhamos assistido a uma aula do Roquette, justo a de
química do Cesar Pereira e, por conta disso, achávamos que o
Roquette era melhor. Mas enfim, o PEnsi estava mais barato. Eu
respondi que passaríamos lá no dia seguinte para conversar.
Me lembro que o Rodrigo não queria nem
ir no Roquette. Mas eu insisti. Disse que a Denise tinha sido muito
legal e atenciosa com a gente, então ela merecia uma satisfação.
Na hora do almoço, fomos ao Roquette. Ainda no caminho lembro de
conversarmos, em tom de piada: “Já pensou se a gente conseguisse
100% de bolsa no Roquette?” e demos risada. Mas ao chegarmos, a
Denise foi direto ao ponto: “Olá meninos, eu tenho uma super
oportunidade, vocês poderão estudar no Roquette sem pagar”.
Estávamos meio ressabiados com as merdas que tinham ocorrido, então
eu falei “100%? não vamos pargar nada? Sem taxa de material, sem
mensalidade, nada?”. Ela respondeu positivamente. Mesmo assim,
falamos que iríamos pensar, afinal, já estávamos no outro curso.
De noite nos reunimos e conversarmos
com nossos pais. A minha mãe e a do Rodrigo apenas falaram para
escolhermos o que achássemos melhor, enquanto o pai dele, o seu
Gama, achava melhor continuarmos onde estávamos. Nós queríamos ir
para o Roquette, mas achávamos sacanagem sair do PEnsi depois de
iniciar as aulas. Mas, no fim, não tínhamos assinado nenhum
contrato, então acabamos indo para o Roquette. No outro dia já
trocamos de curso. Chamamos o pessoal que estava no PEnsi, mas ele
preferiram não mudar.
O fato engraçado que fiquei sabendo um
tempo depois é que a Denise tem um filho da Marinha que estudou
junto com o então Tenente Anselmo, a quem ela conhecia pessoalmente
pois os dois eram amigos. Então ela perguntou a ele sobre nós e ele
passou nossa “ficha suja”. Ela disse que no contrato que fez com
a gente, poderia nos tirar do curso se tivesse qualquer problema
disciplinar. Depois de uns seis meses ela conversou de novo com o
Anselmo e disse “Anselmo, tem certeza que o Renzo e o Rodrigo era
de quem você tinha falado? Os dois estão super bem no curso, nunca
deram qualquer problema, realmente não parecem nem de longe os
demônios que você falou”. Ele só respondeu: “Vai confiando na
carinha de santo deles.”
De toda maneira, pelo menos alguma
coisa deu certo nesse período. Mas não foi só isso. Sabendo da
nossa situação, a Sandra, mãe do Rodrigo, me chamou para
conversar: “Renzo, você vai morar aqui em casa. Mas eu não estou
te fazendo nenhum favor, eu sou pragmática. Você vai morar aqui
para ajudar o Rodrigo no estudos”. Novamente, depois do Major
Romão, pessoas que eu mal conheciam estendiam a mão para me ajudar.
Sou muito grato a todos: Roquette, Denise, Sandra e Seu Gama.
Então estava resolvido o plano B, eu
moraria na casa do Rodrigo e estudaria no Roquette. Mas paralelo a
isso, o processo contra a Marinha seguia. E isso fazia com que não
focássemos 100% nos estudos. Em janeiro, tivemos quer ir no CN para
pegarmos alguns documentos, principalmente nosso diploma de segundo
grau, que seria necessário nos vestibulares. A ideia era também
conseguir o Regimento Interno (RI), para podermos pautar melhor nosso
processo. Então fomos eu, Rodrigo, Sandra e minha mãe para Angra
dos Reis.
Ao chegar lá, o Tenente Serafim nos
recebeu em sua sala. Eu falei para ele que precisava de um exemplar
do RI do CN, mas ele disse que não poderia nos dar um. Eu pedi então
que me emprestasse para tirar xerox dentro da unidade mesmo, ao que
ele também respondeu negativamente. Mas então ele saiu da sala, e
tinha um RI sobre a mesa. Ficamos na dúvida se ele tinha deixado ali
de propósito ou não. O fato é que eu peguei o RI e minha mãe
colocou na bolsa. Ela tremia igual vara verde, então eu falei para
sairmos e deixarmos o RI no carro (Serafim: depois me manda uma msg
se você deixou esse RI lá de propósito ou se você sequer deu
falta dele....rs).
Com o documento em mãos, demos
continuidade ao processo. Com ele, vários elementos do Conselho de
Ensino foram questionados, principalmente no que dizia respeito ao
direito de ampla defesa. Dentre as ações que tomamos, uma delas foi
pedir a ata da reunião da votação dos oficiais. Foi interessante
ter acesso a esse documento.
A ata descrevia que no início do
reunião, cada oficial falava sua opinião sobre o aluno. Só depois
de ouvir todas, eles votavam. Todos que foram “absolvidos”
estavam nessa primeira leva. Mas a partir de um certo momento,
mudaram o procedimento: o oficial falava o que pensava do aluno e
depois já votava, sem ouvir as opiniões dos demais. Mas o que
intrigou a todos foi ver o resultado da votação. Em favor de minha
permanência, votaram apenas o Serafim e o Lincolm. Engraçado é que
eu não tinha muito contato com o último.
Mas o fato mais intrigante foi saber
que o médico Oscar Passos votou contra praticamente todo mundo. Isso
porque logo depois da votação, ele tinha falado que achava uma
injustiça o que tinha ocorrido e que deveríamos colocar na justiça.
Mais do que isso, tinha dito que tinha votado em favor de todo mundo.
Eu até hoje não sei a razão disso. Isso porque eu já tinha tido
contato com ele, como escrevi em outros posts, e me parecia um cara
bacana. Mas mais do que isso, eu acredito em toda filha da putagem no
mundo, mas em geral, a “judaria” vem acompanhada de algum ganho
pessoal. E nesse caso, o Oscar não tinha nada a ganhar mentindo pra
gente. Eu só enxergo duas explicações lógicas para isso:
- O documento que tivemos acesso foi forjado, tendo sido alguns oficiais obrigados via assédio moral ou ameaças a assiná-lo.
- Realmente o Oscar Passos era o maior duas caras que eu já vi na minha vida. Nesse segundo caso, isso o tornaria pior que o Calcinha, pois esse pelo menos deixava claro o curso de suas ações. Se um dia o Oscar ler esse post, eu gostaria de conversar, por conta da curiosidade, para saber o que houve.
Outras coisas interessantes ocorreram.
O Tenente Anselmo disse na reunião que eu era conhecido por dar
trotes nos alunos, e que por isso não deveria ir para EN. Enfim,
depois de ler esse documento eu fiquei muito puto. Escrevi uma carta
com umas 20 páginas contestando todos os pontos que li na ata. Por
exemplo, nesse do Anselmo eu contestei, mencionando o RI, que se ele
sabia que eu dava trote e não fez nada, ele teria prevaricado por
não me dar uma parte pelos ocorridos. Ou seja, se sabia dos trotes,
não deu parte de ocorrência porque? Por acaso tinha uma simpatia
por mim? Fui ainda mais além, e joguei toda merda no ventilador que
eu sabia, como o caso do Calcinha em Barbacena, durante a NAE, saindo
na “night” e dando idéia em meninas de 20 anos, enquanto estava
com esposa e filho recém-nascido em casa. Fiz infinitas cópias
dessa carta e mandei para todos militares do CN. Acho que na minha
ânsia de justiça, acabei misturando as coisas. Mas tenho a
consciência tranquila que nessa carta não escrevi nenhuma mentira.
O outro motivo da escrita da carta era
servir também de base para o processo. Depois de acessar o documento
sobre a reunião, eu tinha ainda mais certeza que a justiça seria
feita. Mas para podermos construir um caso forte, precisaríamos
desfazer a má imagem que os oficiais haviam descrito no documento
contra nós. Então pensamos e montar um abaixo assinado com a
participação de nossos amigos de turma. Montamos um texto em que
eles assinariam atestando que éramos bons alunos e companheiros, que
não tínhamos graves problemas disciplinares. Mas foi aí que eu
recebi um dos mais duros golpes.
Levamos o documento à Escola Naval.
Cheguei naqueles que eu considerava mais chegados. Afinal, eramos uma
turma, quase irmãos, como todos diziam. Mas é na hora que a bomba
explode que você testa quem é ou não seu verdadeiro amigo. Todos
os meus “irmãos” mai chegados não assinaram o documento, com
medo de sofrerem represálias futuramente. Aquele foi um chute no
saco muito forte na época. Eu lembro que conseguimos apenas algumas
assinaturas de amigos do Rodrigo e do Alan Viana, que não era nem
muito chegado a mim ou ao Rodrigo. Eu sai da EN arrasado. Mas haveria
ainda mais uma experiência que, unida a essa, me fariam mudar
completamente a visão de mundo.
Depois de uns 3 meses nessa batalha,
chegou o round final: o processo chegou à segunda instância e seria
julgado por um desembargador. O mesmo proferiu: “Eu até acho que
vocês estejam corretos e poderiam voltar à EN. Mas se eu permitir
isso, tenho certeza que minha decisão será revertida em instância
superior e, mais do que isso, ainda poderei ser prejudicado por não
votar o que esperam de mim”. Cara, aquela foi a gota d'água.
Qualquer resquício de idealismo que vivia em mim morreu naquele
momento. Cheguei a conclusão que só tinha filha da puta no poder e
que eu deveria jogar o jogo como ele era. Ou seja, não lutar contra
o sistema, apenas jogar o jogo. Ali nascia um lema que na época
achei que era universal: “O mundo é mau”. Eu não acreditava
mais nas pessoas, sempre esperava o pior delas, deixando para fazer
justiça apenas quando eu tinha o poder para fazê-lo.
Hoje considero que a minha leitura
estava equivocada. Ainda tem muita gente boa nesse mundo, eu fui
ajudado por muitas delas no meu caminho, como já até comentei nesse
mesmo post. Mas o fato é que, em instituições em geral, aprender a
“jogar o jogo” continua sendo importantíssimo. Mais do que
competência, no mundo das instituições o fator “relacionamento
pessoal “é o preponderante para definir o quão fácil ou difícil
será sua vida. Ele muitas vezes define quem vai ser promovido ou
não, quem vai continuar na Marinha ou não. Mas foi só depois de
todas essas porradas que eu aprendi isso.
E o momento de colocar toda essa merda
para trás foi esse. Paramos então de pensar em voltar via processo
e focamos no curso. Nesse meio tempo, enquanto ainda estávamos na
batalha, lembro de o Roquette me chamar para conversar: “Renzo, o
que é que está acontecendo? Você é um cara para ser primeiro do
concurso, mas fica com essa merda de Marinha. Quem nasceu para ser
cabeça não vai ser rabo nunca. Vou te contar uma coisa, nessa vida
ou você serve a Deus ou ao Demônio. O que não dá é para servir
aos dois ao mesmo tempo”. Enfim, ainda uso essa parábola até hoje
para mim, ou para outra pessoas, no momento em que estou perdendo o
foco.
Chegava então a hora de estudar sério.
Estávamos sempre na turma 1, mas nunca entre os 25o
primeiros, que tinham acesso a estudo adicional na parte da manhã, o
chamado “clube do bolinha”. Depois de alguns meses, conseguimos
entrar nesse grupo e focamos totalmente no estudo. Nesse período,
fizemos boas amizades no curso: Trancoso, Jac, Raissan, Ingrid,
Papel, Renard, Luis Flavio, Eduardo, Zé, Sérgio, Hélio, Alan,
Leonardo e Leandro Loriato (vulgo Zigoto e Zigotinho...rs). Era um
tempo bacana, mas também de bastante sacrifício.
A fórmula dos cursinhos preparatórios
é muito simples: você estuda muito. Não tem essa de ser
inteligente, de ser um gênio. O processo exige apenas dedicação e
disciplina. E o professor Roquette era, e é, um grande executor
dessa idéia. Ele sempre dizia “Faz o que mando e será aprovado”.
Ou as vezes, em seus famosos discursos aos sábados, antes dos
simulados, ele comparava o estudo ao treinamento de ginástica
olímpica: “Por que vocês acham que a Nadia Comaneci era perfeita?
Ela treinava muito, e treinava os fundamentos. Ó: parada de mão”.
Cara, eu e o Rodrigo riamos muitos desses discursos.
Mais para o fim do ano o ritmo
aumentou. Estudávamos no clube do bolinha das 9 as 11:30, voltávamos
13:30 e só saímos as 21 horas, de segunda a sexta-feira. Aos
sábados estudávamos das 9 ao meio-dia e fazíamos simulados na
parte da tarde. Era cansativo e estressante. Lembro que naquele ano
inteiro, só só sai em apenas 4 fds, para ir tomar umas ou à praia.
Engordei cerca de 15 kilos. Era comum alunos sem muita base terem que
fazer 2 anos de curso para poderem passar no vestibular. Outros não
passavam nem assim, se não levassem a sério.
O período de provas chegou. A primeira
acho que foi da Escola Naval. Acabei ficando nervoso e mandei muito
mal. Depois veio o IME. Nessa eu tinha ido melhor. Fiz também a
UERJ, prestando para bombeiro. Nessa a gente sempre mandava bem,
porque comparada às demais, essa era fácil. Ou como o Roquette
gostava de dizer, limpávamos a bunda com ela...rs. Continuamos
estudando para a última prova, que considerávamos mais difícil: o
ITA. Mas na semana anterior a esse vestibular, era divulgado o
resultado do IME.
Eu, Rodrigo e nossos pais no dirigimos
à Praia Vermelha. Quando saiu o meu resultado, pensei: “fudeu”.
Fiquei em 54o lugar na vaga dos militares. Sendo assim,
apesar de estar aprovado, eu provavelmente não seria chamado, já
que era comum que chegarem apenas até o 45o colocado.
Fiquei feliz pelo Rodrigo, ele passou na EN e no IME. Mas não
consegui ficar animado ao ponto de ir curtir o famoso rodízio no
Porcão com todo mundo que passou, que foi patrocinado pelo grande
mestre Rubião.
Foi engraçado ver o Rodrigo
progredindo tanto, passando nos concursos, e eu não. Isso só
mostrava o quanto a classificação de nossa época de CN não valia
nada, já que eu era oficial aluno e o Rodrigo estava sempre no fim
da lista. Em particular, durante o ano eu já tinha percebido que ele
era mais inteligente que eu. Não sei até que ponto contribui ou não
com a sua evolução. Mas pelo menos eu tinha a sensação de ter
cumprido a minha missão com a Sandra, que era a de fazer ele
estudar.
Mas diferente dele, eu não tinha
passado em nada e já fazia planos para mais um ano de curso.
Cogitava até mesmo me tornar Bombeiro pela UERJ. Afinal, não seria
no ITA, logo o concurso mais temido, que eu passaria. Mesmo assim fui
fazer as provas. Recordo da primeira: física. No ano de 2003 ela foi
bem difícil, deve ter cortado um monte de gente boa. Como eu não
esperava nada daquele concurso, eu estava tranquilo. Levantei a
cabeça no meio da prova, dei uma olhada no sofrimento de todo mundo
e pensei, rindo comigo mesmo “É gente, vocês que estão
disputando essas vagas estão ferrados, essa prova está muito
escrota. Ainda bem que eu só estou aqui me preparando para os
vestibulares do ano que vem”. Ou seja, eu já tinha agasalhado
fazer outro ano de curso, apesar de saber o tamanho desse
sacrifício. Por conta disso, eu saia, como em todas as provas,
rindo. Teve gente, amigo meu, como o Helio, que depois confessou que
quando me via sair rindo, ficava puto, achando que só ele tinha ido
mau. Acredito que eu tenha eliminado alguns concorrentes fazendo
isso...rs.
Acabou a semana de provas, eu foquei em
duas coisas: preparar mais uma excursão para Porto Seguro e armar um
plano para fazer o Roquette no próximo ano. Minha primeira
tranquilidade foi que a Sandra, mãe do Rodrigo, falou que eu poderia
continuar morando lá. A segunda foi que a Denise também me garantiu
a extensão da bolsa.
Contudo, ela me pediu para fazer o
bolsão, pra eu testar como é que estava a prova. Depois de estudar
por um ano, você fica afiado. No bolsão faltou apenas uma questão
para eu fazer 100% de bolsa. Ou seja, realmente aquela era uma prova
bem escrotinha, afinal, eles não podia ficar dando bolsas para todo
mundo. O Roquette me viu saindo da sala o e me chamou: “Renzo, o
que você está fazendo?”. Respondi: “Estou fazendo a bolsa
Roquette, a Denise pediu para eu testar. Além do que, já server
para eu me preparar para ano que vem”. Ele retrucou: “Você não
quer o ITA?”. “Querer eu até queria, mas nem na Esolha Naval eu
passei...”. Então ele profetizou: “Se você não tiver passado
no ITA, eu te contrato de professor aqui do curso.”. Eu ri, e
pensei: “Lá vem o Roquette com o discurso positivista dele. Já
está querendo subir minha bola para eu me motivar para ano que vem”.
Fora isso, levantei com a Denise a
possibilidade de abrir, em conjunto com minha mãe, uma republica
para estudantes de outras cidades. Ela concordou e passamos a
procurar o local. Encontrando uma casa que ficava na mesma quadra do
curso. Ou seja, eu poderia morar ao lado, sem precisar enfrentar a
Avenida Brasil todo dia.
Nesse período pós provas, o Rodrigo
acabou conhecendo a Fernanda, de quem eu acabaria sendo padrinho de
casamento alguns anos depois. Por conta disso, ele desistiu de viajar
para Porto Seguro, na faixa, com todo mundo. Tudo estava programado
para o próximo ano de estudo e eu agora só queria curtir a viagem,
recarregando as energias para o próximo período de sacrifício.
No dia 23 de dezembro estou eu
dormindo, acordo com uns tapas na cara. Abro os olhos, é o Rodrigo.
Eu ia mandar ele se fuder e perguntar que merda era aquela. Mas aí
ele já disse que tinha entrado na internet, que eu havia passado
para ITA! Eu não sabia se ria, se chorava, se dava cambalhota ou se
era um sonho. Fiquei mais que feliz! Não teria que fazer mais um ano
ferrado de curso, iria para São José dos Campos no ano seguinte. Ou
seja, um ano que só tinha dado merda para mim acabava de ficar bom
em seu final. Aquela viagem para Porto foi uma das melhores da minha
vida, aproveitei como nunca.
Mais uma vez o Universo conspirava em
meu favor, me ensinando com duras lições sobre humildade, relações
humanas e perseverança. Mas uma vez minha resiliência, meu
“Querer”, era recompensada.
Enfim, assim termino esse conjunto de
posts: Quando você “Quer”, o Universo conspira em seu favor. E
como muitas vezes escuto em entrevistas, deixo a mensagem para você
que está lendo: não desista de seus sonhos e objetivos. Persista e
trabalhe que as coisas vão acontecer. Pode não ser exatamente como
você espera, mas a caminhada sempre vale à pena e pode ter levar
onde você nunca imaginou. Eu nunca pensei que acabaria me tornando
engenheiro pelo ITA ao começar a estudar para o Naval em 99.
Abs,
Renzo Nuccitelli
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Quanto você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 5
Depois da ascensão e apogeu, só
poderia vir a queda.
Após a adaptação comecei a levar a
mesma vida do segundo ano. Como havia prometido ao fim da adaptação,
eu já tinha tirado o “recalque” com os calouros e não queria
saber de problemas.
Apesar disso, muita gente da minha
turma acabou sendo expulsa no início do ano por conta dos trotes,
como foi o caso do Alfenas e do meu comesa do primeiro primeiro,
Vigné.
O Calcinha vinha ditando a nova voga e
pelos colegas ficávamos sabendo das histórias de assédio moral. O
curioso era que ele resolvia implicar com pessoas que eram
relativamente tranquilas. Um dele era o Ricca. Ele nos contou que foi
chamado para conversar com o COMCA e ele contou a história dos
exército das comcubinas. Em resumo, para conseguir educar um
exército de comcubinas, o general cortava a cabeça de uma para
ganhar o “respeito” e obediência das outras. Enfim, o cidadão
lê “A Arte da Guerra” e acha o máximo pagar mistério para
subordinado. Mas enfim, uma característica do sistema que percebi
cedo foi que ele premia e promove os que assim agem.
Outro que recebia uma atenção
especial era o Teixiera Gama (Rodrigo). Por alguma razão obscura, o
Calcinha não o suportava. Ele havia prometido que enquanto ele
fosse COMCA, ele não ser formaria. O Rodrigo era um cara tranquilo,
a única coisa que você podia falar dele era sua apresentação, não
tinha saco para se manter alinhado. Mas como ele havia vários
outros, até piores, então porque a preferência? O que descobrimos
depois é que o irmão do Teixeira era da turma do Calcinha e eles
não se davam. Parecia que o Luiz Antônio estava descontando algum
recalque.
Os alunos viviam sendo chamados por ele
para prestar esclarecimentos. Em um deles, eu fui chamado. Entro na
sala, estava o COMCA e um oficial do quadro auxiliar que não gostava
de mim. Foi convidado a sentar e vem a primeira pergunta: “Renzo,
sobre trote, o que você tem a dizer?”. Como disse, depois da
adaptação eu estava muito sossegado. Mas depois da pergunta,
lembrei da adaptação e do episódio com o Biro Biro. Mesmo assim
respondi: “Não tenho nada a dizer, senhor”. Aí ele falou para o
oficial: “Coloque aí que ele não tinha nada a declarar”. Mas
felizmente, o tom da conversa foi suave. Ele havia recebido denúncia
de trote e como eu era o responsável pelo alojamento do primeiro
ano, ele queria saber se eu tinha ouvido algo sobre a ssunto. Mesmo que eu
soubesse, dedo duro nunca fui. Mas era sempre assim as conversas,
sempre jogando verde.
Nessa época as mães dos alunos do
primeiro ano criaram uma associação: “Associação de Mães
contra o Trote”. Elas viviam fazendo denúncias. E quando as
faziam, os oficiais perguntavam quem seriam os autores. E muitas
vezes meu nome vinha à tona, mesmo eu não fazendo nada, somente por
conta de eu ser o responsável do alojamento do primeiro ano. Em uma
dessas eu fui chamado pelo Tenente Anselmo para prestar
esclarecimentos. Ele falou que uma mãe tinha ligado e falado que eu
tinha dado trote no filho dela na terça-feira de madrugada daquela
semana. Refiz os meus passos e descobri que no dia eu tinha me
machucado no futebol e dormi na enfermaria, com toda a equipe médica
de testemunha lá. Enfim, tirando a adaptação, minha consciência
estava muito tranquila.
No meio daquele ano, fomos em um
churrasco na casa do Tenente Carlos Alexandre, que era responsável
pela equipe de futebol. Eu tinha começado a beber no segundo ano e
tomei umas cervejas naquele churrasco. Quando retornei ao alojamento,
quem estava de serviço era o aluno Anderson, conhecido pelo apelido
de Gazela. Ele era famoso por ser meio rebarbado. Aquela era uma
quinta-feira e eu estava arrumando minhas coisas para ir embora.
Mandei o Anderson ir buscar uma bolsa azul minha, ele acabou trazendo
uma maleta. Eu falei “Eu mandei você trazer uma bolsa azul e não
uma maleta preta”.
Ser truculento não era uma
característica minha, pelo contrário, eu era parceiro da molecada.
Mas o Anderson tirava todo mundo do sério. Acho que ele respondeu
alguma coisa que não me lembro e eu considerei que tinha sido
rebarbado. Estando meio alto por conta da cerveja, dei um empurrão
nele e mandei trazer a bolsa certa. Continuei arrumando minhas
coisas.
Então escutei uns barulhos no corredor
do alojamento. O aluno que estava de
serviço no banheiro estava segurando o Anderson, pedindo para não
fazer aquilo. Fui ver o que estava acontecendo e o Anderson estava
indo me denunciar ao Oficial-de-Dia. Analisando hoje, ele fez a coisa
certa. Mas no Naval daquela época, o que ele estava fazendo era
chamado de “spyar”, o que o tornaria um "spy" e sua vida não
seria fácil. Eu perguntei se ele realmente queria fazer isso, ele
disse que sim. Eu falei para ele fazer então, mas eu era arrogante
ao ponto de achar que ele desistiria no meio da caminho.
Dez minutos depois sou chamado pelo
Oficial-de-Dia Tenente Anselmo que me pergunta se eu tinha dado um
soco no aluno. Respondi que não, que tinha dado um empurrão. Ele
falou que não fazia diferença e me mandou ir dormir no alojamento
da minha turma naquele dia.
As consequências do ocorrido todo
mundo sabia: eu levaria uma parte e seria punido 10 dias de prisão
rigorosa após audiência com o Comandante do CN. Por outro lado, a
vida do Anderson também deve ter ficado ruim. Como eu tinha ficado
parceiro de vários primeiro anistas, alguns deles me confessaram que
durante algum tempo eles estavam dando “reunir” durante a
madrugada. Reunir consistia em juntar um grupo de alunos. Eles
levavam um cobertor, cada um segurava em uma ponta e enquanto o jovem
estavam dormindo, o usavam para prendendê-lo na cama enquanto os outro
batiam. Eu falei para eles pararem com aquilo, não por que eu
achasse isso incorreto na época, mas porque aquilo poderia me
prejudicar ainda mais.
Enfim, levei a parte e fui para a
audiência com o Comandante Guilherme. Na audiência, ele me falou
que meu nome era levantado constantemente em denúncias de trote. Eu
disse a verdade, que todas eram falsas e contei o caso de quando fui
interrogado pelo Tenente Anselmo. Mas enfim, no oficialato ninguém
mais me conhecia como antes, como na época do Tenente Alexandre e
Comandante Cardoso Gomes. Como todo já esperavam, levei 10 “rigs”.
E da mesmas maneira que o Universo
conspira em seu favor quando você Quer, ele começa a conspira
contra quando a auto-confiança se confunde com arrogância. Certo
dia eu tinha estava com alergia e tomei o xarope Polaramine. O médico
tinha me falado que ele dava muito sono, então coloquei meu nome
para que o ronda me acordasse. Ele não me acordou e eu levei 3
detenções por conta disso.
No dia seguinte, mesmas coisa, esqueceu
de me acordar. Só que dessa vez eu acordei com o Imediato do Corpo
de Alunos acendendo as luzes do alojamento. Eu já estava tão
desesperado para não tomar parte que fui para a janela do alojamento.
Mesmo sendo o primeiro andar, até o chão deveria ter uns 5
metros de altura. Segurei no cabo do para-raio e desci por ele, indo
me esconder na subida da caixa de água.
Naquele tempo estavam acontecendo
muitos roubos no alojamento e o Melo não estava encontrando seu ferro
de passar. Como a situação já estava ficando insuportável,
ele foi falar com os oficiais na sexta-feira, na hora da formatura para liberaração. Todo
mundo ficou muito puto com ele, porque isso atrasaria a ida para a
casa. Então resolveram revistar as malas dos alunos e em vez de
encontrarem ferro, encontraram um monte de carteiras de Marinha com
os alunos do primeiro ano. Por fim, o Melo descobriu que tinha
colocado o ferro em outro lugar e o pessoal ficou desarrumando a cama
dele por umas duas semanas por conta do ocorrido.
Mas as carteiras chamaram atenção e
começaram a interrogar os calouros para saber o que estava
ocorrendo. Chegaram então à fonte, o Sérgio. Eu e ele fomos
os únicos a passarmos no Colégio em Santos no ano de 99, sendo que eu já
o conhecia antes, quando fizemos Kick Boxing no Sírio Libanes, clube
da cidade. Então o Calcinha empregou sua técnica de coerção,
falou para o Sérgio dedurar quem mais estava fazendo comércio a
bordo e, caso contrário, a punição dele seria bem pior,
possivelmente expulsão.
Então o Sérgio entregou todo mundo
envolvido em comércio, desde a adaptação. Na segunda-feira logo
começaram a chamar todo mundo envolvido. Como eu disse no post
anterior, como era de praxe, eu tinha vendido camisas durante a
adaptação e estava esperando a hora de eu ser chamado. Isso seria
muito ruim para mim, pois com 10 rigs nas costa, eu não ficaria de
conselho no fim do ano. Agora se eu levasse mais 10, a coisa ficaria
complicada.
Mas o fato é que ninguém me chamou,
depois eu soube que o Sérgio denunciou todo mundo, menos a mim. Mas
de toda forma, muita gente tinha sido chamada e eu achava que
possivelmente chegariam a mim. Nesse dilema, conversei com o Caldas e
depois também lembrei do que minha mãe sempre dizia: “Quem conta
a verdade merece perdão”. Então decidi procurar o Tenente
Serafim e contar a ele, deixando a decisão sobre o que fazer em suas
mãos, na qualidade de único oficial que eu considerava ser integro
e justo. Ele estava de serviço e eu contei a ele que tinha vendido
camisas. Ele se mostrou decepcionado e falou pra eu me apresentar ao
COMCA.
Todo mundo envolvido com comércio
estava lá. Ao me ver, o Calcinha perguntou o que eu estava
fazendo lá. Eu disse que estava me apresentando por também estar
envolvido. Ele mandou eu esperar no corredor com os demais que ainda
seriam interrogados.
Entramos na sala um a um e contamos o
que fizemos. No meu caso, vendi camisas durante a adaptação.
Contudo, o COMCA estava também interessado em saber se tínhamos
obrigado os alunos a comprar. Falamos que o comércio sempre ocorreu,
mas nunca foi obrigatório, ou seja, contamos a verdade.
Na semana que se seguiu alunos do
primeiro ano começaram a ser ouvidos. Reparando que o COMCA estava
começando a procurar pêlo em ovo, peguei um exemplar do Regimendo
Interno do CN para saber até onde ele poderia ir. Descobri nele que
dado um certo acontecimento, você poderia tomar apenas uma parte por
ele. No mais, as demais condições deveriam ser lançadas como
agravantes ou atenuantes. O lado bom disso é que a penalidade máxima
por uma parte seriam 10 dias de prisão rigorosa.
Mas é óbvio que o Calcinha sabia
disso também e fez sua cama de gato: me deu 3 partes. Uma por
comércio a bordo, outra dizendo que eu tinha brigado os alunos a
comprarem e outra que eu nem lembro a razão. Mas aí vem a auto
confiança do cara que tinha conseguido tudo até então. Ponderei
com ele que aquilo não estava correto, que deveria tomar parte
somente por comércio e ele deveria lançar as outras duas como
agravantes. Além disso, falei que era para ele lançar o fato de eu
ter me apresentado voluntariamente como fator atenuante.
Se eu pudesse voltar na tempo, eu daria
um tapa em mim mesmo para dizer: “Acorda Zé Mané”. Um aluno
contestando um Capitão de Corveta? Só sendo muito inocente mesmo
para pensar que disso poderia sair algo positivo. Mas eu acreditava
em justiça, que por mais boçal que um oficial pudesse ser, ele não
poderia ir contra às regras. Ledo engano. Obviamente que ele
simplesmente cagou na minha cabeça. Me mandou para audiência com o
Comandante do Colégio com 3 partes nas costas.
Então eu poderia levar até 30 dias de
prisão rigorosa, 10 por cada parte, e isso seria um problema. Acabei
levando 13 e assim eu me tornava o recordista de prisões até então
com 23, somando as 10 que já tinha levado por conta do ocorrido com
o Anderson. Só fui superado já no fim do ano, quando o Rodolfo
conseguiu somar 24 rigs.
Comecei então a cumprir a pena. Mas
durante ela ocorreria o nosso baile de integração. Era praxe nos
anos anteriores os alunos terem a pena suspensa para comparecerem ao
evento. Mas não sob a administração do Calcinha. Ao conversarmos
com ele, não fomos liberados e, mais do que isso, ele nos falou que
a culpa de não irmos era nossa por estarmos no lance.
Mas eu não ia desistir fácil, como
disse, a arrogância era muito grande. Me dirigi então ao Serviço
de Orientação Educacional (SOE) e conversei com psicóloga Patrícia
Pontes. Ela intercedeu junto ao COMCA, mas não obteve sucesso.
Apenas como parêntesis, parece que depois os dois tiveram algum
envolvimento amoroso. Mas voltando ao assunto, me lembro que o
Giacomo também estava preso e sua mãe era advogada. Tentei juntar
todos o presos para entrarmos com uma liminar na justiça para irmos
ao baile. Os mais espertos falaram que não iam querer entrar nessa,
mas mesmo assim eu segui em frente.
A mãe do Giacomo entrou em contato
com o Calcinha, mas rapidamente retornou dizendo que era
melhor ficarmos quietinhos, que o COMCA era um maníaco. Enfim,
perdermos o baile que era um dos melhores eventos do CN. Naquele ano,
ele ocorreu na Marina da Glória.
Depois de uma semana de punição,
chegou a época da NAE. Depois do ocorrido com o baile, eu
sinceramente não queria ir. Isso porque para a competição
suspenderiam nossa punição. Achei isso uma tremenda hipocrisia:
para o baile não fomos liberado, mas para uma competição esportiva sim.
Mas nessa situação, achei melhor participar. Seria uma chance de
ganhar alguns pontos de conceito, além de eu adorar jogar bola.
Mas quando a coisa começa a desandar,
não tem jeito. No jogo contra a EPCAR, no primeiro lance que recebi
uma bola, um meia adversário me acertou uma porrada. Não contente,
disse que ia me bater o jogo inteiro. Como bom baixinho folgado, eu
falei que duvidava e quando fui marcar ele, pisei no seu calcanhar.
Ele ficou muito puto. No próximo lance que recebi a bola ele veio
babando. Mas quando eu dei o drible, ele meteu a mão na minha cara.
Eu cai e fiquei no chão até ele receber o vermelho. Eu ia continuar
deitado, mas o restante do time dele começou a querer me chutar no
chão. Recebi cartão amarelo. Enfim, pelo menos um eu expulsei.
Mas então logo depois houve um lance
mais ríspido com outro jogador e eu também fui expulso. O Fofão
disse que tinha se arrependido em não ter me substituído. Logo no
finzinho saiu uma falta pra eles no entrada da área, que foi
convertido em gol e logo depois o jogo terminou. O Comandante do CN
foi convidado a dar as medalhas e nos cumprimentar. Quando passou por
mim, disse que eu tinha que aprender a não perder a cabeça. Ele
estava certo. Em vez de eu ganhar pontos de conceito na NAE, acabei
perdendo mais ainda.
Voltamos ao CN e continuamos cumprir
nossas penas. Uma das coisas que tínhamos que fazer no fim de semana
era nos apresentarmos para o café às 8 da manhã. Eu já estava
totalmente na merda, então quando era 7:45 eu já estava lá. Teve
um dia que o Tenente Fuzileiro Lincolm era quem estava de
Oficial-de-Dia, mas ele não veio às 8 horas. Presumo eu hoje que o
serviço era coçado e os oficiais davam uma acochambrada, porque era
comum eles cagarem o pau assim. Eu tinha pego um livro do Rodrigo,
Senhor dos Anéis Completo, para passar o tempo e fiquei lendo lá em
baixo até 9 horas, esperando o toque para os presos. Depois de uma
hora de espera, chegamos à conclusão que, como muita ocorria, ele
não viria mais.
Tomei café, fui para o alojamento e
fiquei lendo em uma cama no fim do alojamento, por conta da
claridade. Então umas 10:30 ele tocou o sinal para os presos. Mas
quando urubu está de azar, o de baixo caga no de cima. Eu não ouvi o
sinal e como estava no fim do alojamento, nenhum colega me viu para
poder avisar. Quando deu a hora do almoço me avisaram que o Lincoln
queria falar comigo. Expliquei a ele ocorrido. Disse que estava lá
no horário padrão e ele não, depois fiquei lendo e não ouvi o
toque. Ele respondeu “Não interessa, na hora que o sinal toca que
você tem que vir”. Cara, eu queria explodir e mandar ele tomar no
cu. Mas eu já estava tão anestesiado com as merdas que estavam
acontecendo, que disse “Sim senhor, o senhor está certo, a culpa é
minha e eu mereço a parte”. Acho que ele ficou com pena e não me deu aquela parte
de ocorrência, mas infelizmente na época eu não entendi que essa
deveria ser a postura em um ambiente hierárquico como o quartel ou
uma empresa. Ou seja, se o seu superior está sendo um babaca, você
tem que reconhecer que você está errado e ainda o agradecer por
isso. Mas eu ainda precisava levar mais umas cacetadas para aprender
isso.
Chegou nosso conceito no fim do ano e o
meu foi 1,5 em 10. Isso significava que eu iria para o Conselho de
Ensino, onde decidiriam se eu continuaria ou não na Marinha. Todos
os anos ele ocorria no fim do ano letivo. Mas não naquele, não
esqueça do nosso maquiavélico COMCA Calcinha. Ele marcou o conselho
para dia 18 de dezembro, seria feito inclusive depois da nossa
cerimônia de formatura, feita na Escola Naval e depois do baile
também.
Durante esse baile de formatura, que
acho que foi por volta de 15 de dezembro, quando eu conversava com
amigos, eu dizia que não sabia se iria para EN por conta do
Conselho. Mas todo mundo me tranquilizava, dizendo que eu ia sim, que
eu era um cara na marca, que só tinha dado uns vacilos no terceiro
ano. Para ser sincero, a minha auto confiança era grande e eu também
não tinha dúvidas que iria para a EN. Diferente de muitos, aquilo
era o que eu queria para minha vida. Só que a distância entre auto
confiança e arrogância é muito pequena.
Minha mãe se ofereceu para ir para
Angra comigo para me apoiar. Eu respondi que não precisava, que tudo
ia ocorrer bem, eu tinha certeza. Na primeira parte do conselho, nós
contávamos nossas vidas para os oficiais do corpo de alunos: COMCA,
seu imediato e aos oficiais comandantes de companhia. Assim eu fiz e
me lembro de eu dizer mais do que deveria, principalmente com relação
ao eu ter pedido à mãe do Giacomo para interceder no caso do Baile.
Tudo isso por conta dos verdes que o Senhor Luiz Antônio jogava.
Depois disso, com todos os depoimentos,
todos os casos seriam levados pelo COMCA para apreciação de todos
oficiais do CN: Comandante, Imediato, Oficial Médico (Oscar Passos),
SOE e os demais oficiais da primeira fase. O problema disso era não
ter direito a defesa, sendo COMCA a pessoa a fazer o papel de
advogado de defesa. Era óbvio que isso só poderia dar merda,
realmente eu era muito inocente.
Depois de 4 horas angustiantes, vem o
resultado proferido pelo COMCA de forma objetiva (Só não lembro
todos os nomes do que safaram): “Alan Viana, Brito e Rodolfo vão
para Escola Naval. Os demais, me acompanhem para assinar seus
documentos de saída da Marinha”. Cara, meu mundo ruiu naquele
momento. Foi uma mistura de sentimento: ódio contra o COMCA
acompanhado da vontade de sentar a porrada ou, melhor ainda, um tiro entre os olhos; desespero de não saber o que seria da minha
vida e evoluindo até o delírio de imaginar que aquilo era só uma
brincadeira e que ele deveria reler a lista, pois meu nome deveria
estar lá.
Liguei para casa, avisei minha mãe:
“Acabaram de me mandar embora da Marinha”. Meu velho, dizer isso pra
ela foi o pior de tudo. A vergonha que eu senti naquele momento foi
indescritível. Me senti um merda e ficamos em silêncio no telefone
por cerca de 1 minuto. Falei então que ia desligar, ver o que teria
que fazer e voltaria para a casa.
Ao chegar na sala do COMCA o Calcinha
queria que assinássemos os documentos. O Máximo liderou a revolta,
dizendo que não ia assinar pois assim tinha sido instruído por seu
advogado. O Calcinha ficou possesso, falou que não interessava
porque mesmo não assinando, havia testemunhas, então daria na
mesma. O Máximo replicou dizendo que se não tinha diferença, então ele não
precisava insistir na assinatura.
Ninguém assinou e arrumamos nossas
coisas para retornarmos para casa. Olhando na época e hoje também,
a maioria que não foi permitida a ir para EN tinha cometido seu
pecados, inclusive eu. Mas sinceramente, duas entraram totalmente de
gaiatos: o Rodrigo e o Coxinha. O Caso do Rodrigo eu já comentei. O
do Coxinha, seu grande pecado foi não conseguir passar na aptidão
física. Só o que ele pediu foi para darem a ele o diploma do
segundo grau, nem queria ir para EN. Mas enfim, era o Calcinha quem
decidia, então nem preciso dizer qual foi a resposta.
Na viagem, não sei como não bati o
carro. Eu ficava pensando em como seria entrar em casa, toda a
vergonha na frente da minha mãe e o esculacho que ia levar. Mas minha mãe foi do caralho. Quando cheguei ela só me
confortou. No meio tempo, ela contou para o Bruno, aluno da Epcar que
eu tinha conhecido 2 anos antes em viagem para Porto Seguro. Ele
disse que a tia era advogada e poderia interceder em nosso favor.
Enfim, a luta ganharia mais alguns rounds.
Hoje em dia, cheguei em algumas
conclusões sobre o ocorrido:
1) Anderson: você era um dos caras
mais sãos naquele sistema que gerava uma total inversão de valores.
Quando conversamos durante um baile na EN você veio me pedir
desculpas. Eu disse que eu que tinha que me desculpar e isso não era
demagogia nenhuma, era realmente o que eu pensava e penso.
2) Calcinha: já o agradeci
pessoalmente pelo episódio e depois chego nessa parte história. Mas
aproveito para agradecer de novo. Não fosse você, eu não teria
aprendido a lidar com pessoas, independente de o quão boçais elas sejam, principalmente quando elas tem poder e
autoridade sobre você.
Sobre ser expulso, eu penso de duas
maneira:
1) No fim eu tive o que merecia por tudo o que fiz durante a adaptação e pela arrogância de não abaixar a crista mesmo quando estava claro que eu ia me ferrar. Nunca eu deveria ter tratado um subordinado como tratei o Anderson.
2) Por outro lado, levando apenas em conta as razões de eu ter sido julgado: empurrar um aluno e vender camisas, chego à conclusão que aquilo foi uma injustiça. Isso seria coisa normal para um jovem de 19 anos e eu era inocente de acreditar que no mundo havia justiça, que as coisas deveria ser feitas da maneira correta pelas autoridade e que todos seriam julgados pela sua competência e seus atos. Me julgaram apenas pelos meus pecados no terceiro ano e não consideraram o trabalho duro que tinha feito nos dois primeiros, quando eu tinha uma ficha disciplinar ilibada.
Mas mais importante que tudo isso, hoje para
mim não interessa se foi ou não injustiça, águas passadas não
movem moinho e eu aprendi a só extrair bons ensinamentos de tudo que
ocorreu.
A continuação dessa história fica
para outro post. Por enquanto, coloco algumas fotos do CN da época
de terceiro ano.
Abs,
Renzo Nuccitelli
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| Eu e o Biro Biro. |
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Instalando servidor Jenkins caseiro
Estou escrevendo esse post para
ficar de tutorial para mim mesmo no futuro =D.
Como toda receita, vamos aos
ingredientes:
- Computador, pode ser aquela torre velha que não servia para nada
- Internet
- Ubuntu 12.04
- No-Ip
Modo de preparo
1) Instalando o Jenkins
No Ubuntu, o Jenkins já possui pacote
padrão. Portanto, basta rodar o comando
sudo apt-get install jenkins
Inclusive meu amigo Dênis Costa fez
uns scripts bacana para já instalar alguns tipos de ambientes:
Se a instalação ocorrer com sucesso,
ela criará um daemon que vai rodar sempre que o computador
for ligado. Você pode conferir se rodando acessando no seu
navegador:
Essa instalação cria um usuário
chamado “jenkins” para rodar o serviço, e a home dele se
encontra em:
/var/lib/jenkins
Como essa pasta pertence ao usuário
jenkins, toda vez que você for alterar, deverá executar as operações
como usuário jenkins ou como super usuário.
A instalação via pacote é mais fácil
mas, em geral, não contém a última versão estável. Inclusive na
página "Manage Jenkins" ele coloca a mensagem de atualização:
Então se você está fazendo uma
instalação nova, aproveite para já atualizar. Visite a página do
projeto (http://jenkins-ci.org/)
e baixe o arquivo jenkins.war:
Após o donwload, pare o serviço
do jenkins:
sudo service jenkins stop
Substitua o jenkins.war na pasta:
/usr/share/jenkins/jenkins.war
Reinicie o serviço:
sudo service jenkins start
Acesse novamente localhost:8080. Depois
navegue para Manage Jenkins → Configure System. Quando instalei, a
atualização era um patch de segurança e por conta disso era
necessário atualizar alguns arquivos. Nessa página (Manage
Jenkins), existe logo em cima um aviso pedindo para você clicar para
ele sobrescrever esses arquivos. Clique no botão para sobrescrever.
Feita a atualização, ele pedirá para você conferir o log de
atualização (ele mostra um link indicando isso) e se tudo estiver
ok, você pode clicar no botão “Dismiss message” para que a
mensagem não aparece mais.
1.1 Segurança
Como a ideia é expor o serviço na
web, precisamos de um mínimo de segurança. O jeito mais fácil de
controlar quem pode acessar o sistema é utilizando o Open Id. Para
isso você precisa instalar o plugin. Navegue para:
Manage Jenkins → Manage Plugins e
clique na aba Available
Como existe muito plugin, no seu
navegador use o Crtl + F e pesquise por openid. Dê um check nele:
Depois clique em “Download now and
install after restart”. As vezes o processo de instalação não
consegue restartar o jenkins com o plugin instalado. Se for o
caso, a dica é rodar o comando para restartar na força bruta:
sudo service jenkins restart
Se a instalação ocorreu com sucesso,
você deve navegar para:
Mange Jenkins → Configura Global
Security:
Dê um check em “Enable
security” e na parte de "Access Control". Selecione a opção "OpenID
SSO", colocando o link do Google. Na parte "Authorization", escolha o
"Matrix-based security" e acrescente os emails dos usuários autorizados
a acessar a aplicação, bem como seus respectivos poderes:
Clique em salvar.
A partir de agora somente usuários dessa matriz acessam o sistema utilizando sua conta Google como login.
Navegue até Mange Jenkins →
Configure System. Nessa tela, escolha o seu domínio:
Obviamente que você precisa escolher
um domínio que seja seu e que você tenha acesso ao DNS. Cabe notar
também duas coisas:
- Escolhi o https por ser um protocolo bem mais seguro que http,
- Coloquei a porta 8080 e não a default (443). Fiz isso porque se você usa uma internet em casa, a Net bloqueia as portas padrão, por isso você tem que usar outra para poder acessar (Dica que me foi passada pelo Tony Lâmpada, que por sua vez a recebeu do Beraba).
Feito isso, clique em Salvar
Acesse o arquivo /etc/default/jenkins.
Na linha que começa com JENKINS_ARGS, edite para:
JENKINS_ARGS="--webroot=$JENKINS_RUN/war
--httpPort=-1 --httpsPort=8080 --ajp13Port=$AJP_PORT
–preferredClassLoader=java.net.URLClassLoader"
Em termos de Jenkins, a configuração
enfim terminou.
2) Setup No-IP
Como você quer acessar o Jenkins por
um nome, no nosso caso https://seu-dominio.com.br:8080
,a forma grátis, utilizando a sua internet pessoal, é usar o serviço
do site http://www.noip.com/.
Cadastre-se. Entre no Hosts/Redirects
(http://www.noip.com/members/dns/).
Ele vai criar para você um domínio bacana na forma
seu-usuario.no-ip.biz. Se você não tiver um dominio, você até
poderá utilizar esse como padrão. Clique em modify:
Escolha a opção “DNS Host (A)”.
Como o seu ip na Net é dinâmico, você
precisa instalar uma aplicação para avisar o no-ip quando ele muda.
Para fazer isso, execute os seguintes comandos no terminal (usar sudo
se der erro de permissão):
- cd /usr/local/src/
- wget http://www.no-ip.com/client/linux/noip-duc-linux.tar.gz
- tar xf noip-duc-linux.tar.gz
- cd noip-2.1.9-1/
- make install
Ao final da instalação, o programa vai pedir o login e senha de sua conta que você acabou de cadastrar no site do no-ip.
3) Configurando o roteador
Se você utiliza um roteador para compartilhar sua internet, você precisa configurá-lo para dar acesso ao seu servidor. Se você usa um, pode pular esse passo.
Acesse seu roteador digitando no navagador 192.168.1.1. Você precisa saber a senha do roteador. O meu é um linksys e eu vou mostrar as telas dele. Se o seu for diferente, você pode procurar na internet como configurar o seu modelo.
A primeira coisa é que seu roteador deve estar atribuindo ip dinamicamente. Assim, ao seu servidor pode ser dado um ip diferente toda vez que for religado. Isso seria um problema, pois você teria toda vez que conferir o ip no roteador e reconfigurar. Alguns permitem a você atribuir um ip fixo para um computador na rede e foi isso que eu fiz. Acessei:
Cliquei em “DHCP Reservation”. Na tela que abriu, chequei o computador que eu queria e cliquei em add clients.
Assim, o ip não vai mais ser alterado pelo roteador. Em seguida, acessei a parte de redirecionamento de porta. Coloquei como porta externa a 8080 e também como porta interna. Coloquei o ip da máquina escolhida (192.168.1.103) e chequei coluna enabled . Depois salvei as configurações.
Para checar se funcionou, você pode usar o site www.canyouseeme.org. Basta escolher a porta (8080 no nosso caso) e clicar em checkport. Se aparecer a mensagem de Sucess em verde, tudo está ok.
4) Configurando seu domínio.
Nesse ponto, você já pode acessar seu Jenkins através da sua url do no-ip: https://seu-usuario.no-ip.biz:8080.
Mas gostaríamos de colocar o acesso através de nosso domínio. Sendo assim precisamos criar uma entrada CNAME no nosso provedor de dns.
Se você, assim como eu, usa o registro.br, acesso o site, clique em no domínio desejado e depois em Salvar e Editar DNS.
Na página em que abrir, clique em +Record, escolha um subdominio (jenkins no caso) e e escolha o tipo CNAME. Na parte dos dados coloquei o endereço do no-ip: seu-usuario.no-ip.biz.
Agora você pode acessar o jenkins através da url https://jenkins.seu-dominio.com.br:8080. Como estamos usando https e nosso servidor não tem certificado, o navegador vai reclamar. Se for o Mozila, clique em "entendo os riscos". Aqui poderíamos tentar colocar um apache para rodar e servir como proxy, e talvez colocar um certificado nele. Se alguém já fez isso (acho que o Tony fez) me mande o link que eu coloco aqui no post. Para mim não foi um problema adicionar a exceção de segurança.
Conclusão
O objetivo foi atingido: foi possível utilizar aquele computador que estava jogado as traças para fazer um servidor de integração contínua em casa, utilizando a sua internet pessoal. Houve alguns problemas: é necessário colocar https:// e acrescentar a porta no final da url e por conta do certificado, o servidor reclamar. Mas enfim, fiquei satisfeito com o resultado.
Com esse setup agora eu posso, junto com o Dênis, acessar o Jenkins remotamente, até mesmo do celular, para poder demonstrar um deploy com um clique em nossa palestra sobre entrega contínua(http://www.slideshare.net/RenzoNuccitelli/python-brasilentrega-contnua ) sem sobrecarregar a rede do evento (isso quando ela existe ;D)
Espero que vocês tenham gostado desse quitute que preparamos na receita de hoje. Entrem em contato, sugestões são sempre bem vindas.
Abs,
Renzo Nuccitelli
PS: MOMENTO REVOLTA: Ei Net, vai tomar no toba! Procurei saber sobre o bloqueio de portas e dizem que é por questão de segurança. Mas aí acho um link no reclame aqui: (http://www.reclameaqui.com.br/3775039/net-tv-e-banda-larga-virtual/porta-80-bloqueada-para-conexoes-entrantes/). Ou seja, se pagar por um ip fixo, aí pode desbloquear a porta 80, não tem problema com vírus?. Enfim, sei que com isso eles querem evitar que você utilize uma conexão doméstica para servir um site. Mas se eu pago pela velocidade, simplesmente deviam liberar. Pode deixar que eu tomo conta do vírus no meu próprio pc.
Assim se cria uma oportunidade para se ganhar dinheiro em cima da babaquice de uma empresa. A próprio no-ip consegue fazer um proxy reverso para você, permitindo acesso na porta 80 ou 443. Basta pagar e fazer a configuração: http://www.noip.com/support/knowledgebase/getting-started-with-no-ip-com/. O preço fica em 14,95 doletas. Afinal, ser extorquido para ter que fazer um net empresas de mais de R$ 200,00 é o fim da picada: (http://www.reclameaqui.com.br/774534/net-tv-e-banda-larga-virtual/venda-de-ip-fixo-por-9-00-adicionais-na-fatura/). Olhá aí a maravilha de letra miúda dizendo que planos de 10 e 20 mega não incluem ip fixo: http://www.netcombo.com.br/empresas/banda-larga.
Enfim, fica um link que recebi do Luciano Ramalho que aborda bem o assunto, indo ainda mais além: http://terramagazine.terra.com.br/silviomeira/blog/2013/10/28/liberdade-dinheiro-neutralidade/ #marco-civil-internet
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