segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Quando você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 2

escrever... Olá pessoal,

Primeiramente eu queria agradecer as mensagens que recebi depois que escrevi o post anterior. Em particular, recebi várias dos amigos de tempo de Colégio Naval (CN): Serafim, Vinícius, Élcio, Sobreira, Dihego Antônio, Renato Barros e Leonardo Gomes (desculpem se esqueci alguém). Não esperava que fosse ter essa repercussão, mas fiquei motivado para escrever. Mais do que isso, me fizeram alterar o rumo que pretendia abordar, falando do período do CN com mais detalhes. Digo isso porque acho que por muito tempo bloqueei as lembranças daquele período, mesmo as felizes. Enfim, vamos à continuação.

No ano de 2000, após a batalha para passar no concurso, embarquei em uma viagem que marcou minha vida para sempre: entrar no Colégio Naval (CN). A Marinha organizou a viagem de todos não residentes no Rio de Janeiro, concentrando todos na Escola Naval (EN), instituição de ensino superior que forma oficiais de carreira. Foi um dia muito feliz. Começamos novas amizades, jogamos bola e tomamos banho de piscina.

Meu amigo Carlos da Rocha, com o qual estudei por certo tempo no curso do Major Romão, havia me alertado que o período de adaptação do CN era muito difícil. Tinha me passado alguns bizus, alguns hinos que deveríamos aprender para a adaptação, mas acabei não seguindo seus conselhos e simplesmente aproveitei a estrutura da EN para me divertir.

No dia seguinte nos encaminhamos ao CIAGA onde, junto aos demais adaptandos residentes no Rio de Janeiro, embarcaríamos rumo à Enseada Batista das Neves. Entramos nos ônibus, todos felizes, se despedindo de suas famílias. Na saída, quando viramos na Avenida Brasil, ouvimos o dizer que eu repetiria quando chegasse ao terceiro ano: “Acabou a brincadeira pessoal, a partir de agora é sim senhor, não senhor e quero ir de baixa”. Essas eram as boas vindas para o início do período de adaptação do CN.

No caminho formos aprendendo o hino do Colégio. Ao chegarmos, desembarcamos correndo, tropeçando uns nos outros, atirando bagagens para cima e para baixo em meio aos gritos dos adaptadores, que eram alunos do terceiro ano. Pela primeira vez entramos em forma. Parecíamos um bando de ovelhas sendo conduzidos por cães raivosos.

Durante os 15 dias que se seguiram, recebemos instruções de Ordem Unida, fardamento, aprendemos hinos importantes. Além disso, aprendemos a famosa Hierarquia e Disciplina, pilares das 3 forças armadas. Porém, havia toda a pressão psicológica dos veteranos e os famosos e temidos trotes. Os piores deles eram oficiais.

 Era interessante notar como o corpo humano é frágil: ficar 40 minutos parado é algo extremamente doloroso. Em posição de descansar, com as mãoes espalmadas, com os 10 dedos encostados nas costas e quando alguém fraquejava, sempre tinha o veterano amigo para relembrar, gritando, que a mão deveria ficar espalmada. Grito esse sempre acompanhado com um bom tapa pra reforçar a importância da postura. Impressionante como ficar em posição de cobrir, com o braço estirado na posição horizontal, acarretava em uma dor enorme depois de apenas 5 minutos. Enfim, uma grande aula que você acabava tendo na batalha com seu próprio corpo para que ele fizesse o que era esperado.

Mas como sempre falaram, éramos voluntários ali, podíamos desistir a qualquer momento. E assim alguns amigos, provalvemente os mais sãos de nós, desistiram. Me lembro em uma das paradas quando o irmão do Mario Gomes desmaiou ao meu lado e foi levado à enfermaria, indo de baixa logo em seguida. Me lembro de, devido ao cansaço, eu respirar rápido para ver se faltava oxigênio no cérebro e eu desmaiava também, para poder descansar um pouco. Infelizmente ou não, não funcionou...rs

Mas aquele era meu sonho. Mais do que isso, era minha passagem para uma vida melhor e eu estava disposto a pagar o preço. Em nenhum momento pensei em desistir. E em meio a esses momentos difíceis, ia nascendo um grande espírito de corpo, de equipe. Um fato que me lembro muito bem foi quando eu estava de noite, todo moído, e calcularam mal a ceia, de forma que fiquei sem comer. Estava com uma fome desgraçada e lembro do Fábio Nogueira, que eu não conhecia, me dar um pacote de passatempo para matar a fome. Sei que parece um gesto simples, mas lembro que quase ninguém tinha conseguido passar com alimentos até o alojamento.

Após duas semanas de muito sofrimento, chegamos ao fim da adaptação. Finalmente estávamos vestidos com nosso uniforme branco, 5.5, orgulhosos de termos sobrevevivido, prontos para a cerimônia em que deixariámos de ser adaptandos para nos tornarmos alunos. Eu sempre fui um cara durão, meio insensível até. Mas quando estava em forma e vi minha mãe em meio aos demais familiares presentes, simplesmente não aguentei. Comecei a chorar em forma, seguido de alguns outros amigos, como o Feijó.

Apesar de ser um período difícil, lembro de um discurso dos veteranos Gomez Muniz e Shalon ao fim da adaptação: “Pessoal, estamos chegando ao fim da adaptação e eu tenho uma notícia não muito agradável. Esse período de adaptação foi a parte fácil. Na equipe de adaptores estão as pessoas mais responsáveis do terceiro ano. Quando o ano começar, chegará todo o resto babando pra interagir com vocẽs. E aí vcs terão saudades do período de adaptação”.

Pensei: “Está querendo só colocar medo na gente”. Mas realmente estava falando a verdade. Quando chegou todo o terceiro ano, a coisa ficou tensa. Era gente obrigada a enfiar laranja inteira na boca sem descascar, queimando a boca inteira. Primeiro-anista obrigado a jogar suco na comida, misturar e comer. Gente obrigada a tomar um litro de água até quase vomitar. Gente obrigada o ouvir veterano babaca gritando na sua cara, fazendo você pagar infinitas flexões, vestir todas suas fardas, uma por cima da outra, e ser obrigado o correr pelo alojamento. Enfim, todo o tipo de brincadeira sadia que se possa imaginar.

Era engraçado quando íamos subir as escadas dos alojamentos. Era necessário passar pelo primeiro andar, onde ficava a tolda cheia de veteramos. Nos reuníamos em bando, como cardumes de peixes, para nos proteger. Sempre alguém era carteado para alguma sessão de gritaria ou trote físico, sendo sacrificado para que os demais chegassem ilesos ao alojamento do primeiro ano.

Apesar de tudo isso, eu sempre consegui que não me marcassem. Eu sempre me negava a fazer coisas como xingar um veterano a mando de outro, o que chamavam de “piranhar”. Lembro que quando sentei na mesa do Farol e me recusei a piranhar, ele ficou muito, muito puto. Começou a gritar que nem um maluco e me fez beber a jacuba inteira de água. Mas a teimosia é uma característica marcante minha. Eu bebi tudo e não piranhei...rs. Acho que por conta disso os veteranos não gostavam muito de me dar trote, eu não devia ser "brinquedo" muito engraçado...rs.

Enfim os primeiros meses passaram e as coisas se acalmaram, até porque a turma tinha que focar no estudo, que era muito puxado. Inclusive era possível fazer amizade com alguns veteranos. Até mesmo com o Farol eu consegui conversar numa boa, mas isso já mais pro fim do ano.

Acabei entrando para a equipe de futebol e isso foi muito bom. Ajudou a fazer grandes amizades e funcionava como lazer e válvula de escape. A rotina diária era massacrante. A alvorada ocorria às 6 da manhã. Eu acordava 5:40 porque gostava de tomar banho e me arrumar com tranquilidade. 6:30 era o café e 7:30 começavam as aulas. Meio dia iniciava o almoço. 13 horas terminava o almoço e 13:30 começava a parada escolar. Às vezes a parada demorava uma hora, naquele sol, e então terminava com desfile dos alunos. Às 14:35 começava o período de treinamento. Em geral, deixávamos o campo de futebol às 17 horas, algumas vezes mais tarde. 18 horas iniciava a janta e terminava às 19. 19:30 iníciava o período de estudo obrigatório, quando tínhamos que ficar em sala de aula até 21 horas. Iniciava então a ceia e ás 21:30 éramos liberados. Ás 22 ocorria o toque de silêncio e aí podíamos descansar. Mas, na prática, arrumávamos as coisas para o dia seguinte, engraxando sapato, passando farda ou estudando. Mas também jogávamos muito papo fora nesse período, afinal, ninguém é de ferro.

Durante todo esse primeiro ano eu fui um aluno muito aplicado. No Naval vc era classificado pela sua nota e mais um conceito, que era atribuido pelos oficiais. Eu almejava me tornar um oficial aluno. Assim eram chamados os 22 primeiros colocados do terceiro ano, que eram responsáveis por comandar as companhias e pelotões. Eles também faziam parte do período de adaptação.

A fórmula para o ensino de excelência era muito simples e a mesma que eu encontraria no ITA 4 anos mais tarde: processo seletivo acirrado, selecionando excelentes alunos. Provas muito difíceis, mesmo que a qualidade da aula de alguns professores fosse sofrível. Regras rígidas de aproveitamento escolar: média 7; se ficasse de recuperação em mais de duas matérias, repetia; só podia repetir uma vez por nota e outra por saúde. A terceira repetências acarretava em expulsão.

Apesar de tudo, muitas coisas boas também aconteciam. Foram várias amizades e oportunidades únicas. Eu lembro claramente de 4 delas. A primeira foi uma viagem que fiz na fragata Rademaker, com duração de 2 dias indo até o porto de Santos. Ver a minha cidade de alto mar, na proa de uma fragata, foi uma sensação incrível. Minha única preocupação foi que fiquei mareado na viagem e isso seria um problema no futuro, se eu tivesse seguido como oficial.

O segundo grande acontecimento que lembro foi o baile da integração. Se tem uma coisa que compensava todo o sofrimento, era aquele baile. Juntávamos dinheiro de todos os alunos e fazíamos festa no clube Charitas em Niterói. Íamos fardados, de 5.5, e só entravam mulheres. Nós alugavamos ônibus para levarem e trazerem as meninas da festa. Era uma alegria, 5 mulheres para cada homem! E estando fardado, até quem não era bom de papo conseguia se safar. Apesar que lembro de gente “cocando” (não pegar ninguém), mas prefiro não comentar para não causar constrangimentos.

O terceiro evento bacana foi desfilar no aniversário de Monteiro Lobato. Viagem toda paga e desfile na cidade pequena. Fomos a atração. Quem diria que alguns anos depois minha mãe abriria uma loja de móveis na cidade (www.antigonovo.com.br). Esse mundo é muito pequeno. Me lembro de sairmos pra uma festa e eu ter comido um milho muito esquisito junto com o Canthé. Comentei com ele “Isso aqui vai dar um revertério danado amanhã”. Não deu outra. Acordei com a barriga doendo um pouco, mas mesmo assim fui desfilar. Após o desfile, passeamos pela cidade e depois embarcarmos no ônibus para retoranar para casa. Aproveitei a carona, desci em São José dos Campos e peguei condução para Santos.

A dor na minha barriga piorou e quando cheguei em casa fui direto dormir. De manhã acordo com uma dor pior ainda. Ligo pro CN pra saber se tinha hospital em Santos. Me dirigi ao Hospital Ana Costa. Ao chegar, me encaminharam logo para cirurgia de apêndice. Ele havia supurado (acho que é esse o termo) e tiveram que fazer um corte maior que o de costume para fazer assepcia interna. Queriam evitar uma infecção. Ainda bem que estava na Marinha. Se fosse em um hospital público, talvez eu não estivesse escrevendo esse relato hoje.

 Uma semana depois voltei ao CN. Eu fiquei na enfermaria e ia pra aula de abrigo olímpico, não precisa vausar farda. Pelo menos alguma coisa a apendicite trouxe de bom...rs

 Depois de apenas 20 dias, voltei aos treinos de futebol. Eu estava de olho no jogo que teríamos no RJ, contra o Colégio Militar (CMRJ). O fato é que eu era muito sem noção e simplesmente voltei a treinar sem falar com os médicos. Não sabia que alguém tinha que me liberar para os exercícios, afinal, eu me sentia bem. Foi então que 3 dias antes da viagem o treinador falou que eu não poderia ir na competição porque eu nem tinha sido liberado na efermaria. Mas eu já tinha feito certa amizade com a turma da saúde, bati um papo com o Doutor Oscar Passos e ele me liberou.

Embarcamos então para o o CMRJ e iniciamos o jogo no domingo. Foi uma partida dura e o tempo regular terminou em 0 a 0. Inciado o primeiro tempo de prorrogação, ganhamos um escanteio. Lembro do Ricardo, então do segundo ano, me falando “Renzo, vai pra área”. Eu respondi “Cara, sou pequeno e não vou conseguir fazer nada lá. Vou ficar aqui de fora da área pra ver se sobre rebote”. Cobraram o escanteio, a zaga desviou para a linha de fundo. De novo o Ricardo falou: “Vai pra área”. Mas fiquei onde estava. Cobraram o escanteio, a zaga desviou novamente. Mas dessa vez, foi justamente na minha direção. A bola quicou uma vez, mandei um pombo sem asa, de trivela, bem no ângulo esquerdo do goleiro. Me lembro de sair correndo pro meio para comemorar, pensando em segurar o resultado obtido durante o restante da prorrogação. Foi então que eu vi todo mundo invandindo o campo, inclusive o Oscar Passos e demais oficiais. Pensei: “Caramba, chutaram o balde pra postura militar, o jogo nem acabou estão invandindo o campo? Isso vai dar merda”. Mas foi aí que descobri que estava valendo gol de ouro na prorrogação. Depois disso virei peixe do oficialato. O comandante do Corpo De Alunos, Capitão de Fragata Cardoso Gomes se não me engano, e também o da minha companhia, Capitão-Tenente Alexandre, eram boleiros. O Universo não poderia ter me ajudado mais que isso...rs

Recebemos as medalhas e aconteceu uma das coisas mais bizarras. Um senhor me chamou, falou que era agente de futebol, que tinha filmado o jogo e tinha contatos no Flamengo e PSG. Fiquei sem saber o que falar. Se fosse hoje em dia, eu teria largado o CN na hora pra tentar viver um sonho desse. Mas o Renzo daquela época já tinha desistido do sonho de jogar bola pra viver outro: era um militar vibrão, um aluno exemplar que já definira seu futuro: seria Oficial da Marinha do Brasil. Por conta disso, não cheguei nem a entrar em contato com aquele senhor novamente. Mas de fato, aquilo serviu para meu ego subir até o espaço =D.

 O ano terminou, fomos para as merecidas férias de fim de ano. Como minha mãe estava em Porto Seguro e havia alguns amigos querendo viajar, pedi que ela conseguisse um casa para mim e para meus amigos alugarmos. Até onde lembro, viajamos eu, Orrico, Rafael Leão, Spranger e um amigo deles da Epcar, o Bruno. Mal sabia eu que esse negócio de viagem para Porto Seguro acabaria virando um pequeno negócio no futuro. Sabia ainda menos que alguns anos depois a tia do Bruno seria minha advogada em um processo contra a Marinha.

 Mas a viagem foi muito boa e no meio dela fiquei sabendo minha classificação para o segundo ano: 26º  colocado. Assim, eu seria o aluno 2026, onde o primeiro digíto indica o ano, e os 3 seguintes a classificação. Estava bem próximo do meu objetivo de estar entre os 22  primeiro e ser um oficial aluno. E assim se daria o início do meu segundo ano de CN, em 2001.

 Enfim, esse post já está maior que o anterior e vou encerrá-lo por aqui. Foi interessante parar para refletir sobre o Colégio Naval e resgatar lembranças nas quais eu não pensava há muito tempo. Para encerrar, fica uma foto do projeto de jogador tirada pelo de Vito, no campo do Colégio, com a enseada Batista das Neves ao fundo:



Abraços e até o próximo post.

PS: Depois que escrevi o Canthé adicionou algumas fotos do fds em Monteiro:





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