domingo, 27 de outubro de 2013

Quanto você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 4

No início de 2002 nos reunimos no CN 3 semanas antes do início das aulas. A primeira semana era utilizada para que os oficiais passassem instruções aos oficiais-alunos e adaptadores. Nessa ocasião conhecemos o novo Comandante do Corpo de Alunos (COMCA): Capitão de Corveta Luiz Antônio, vulgo Calcinha.

Como comentei no post anterior, a idéia do comando era aumentar a disciplina e logo o COMCA passou a nova voga (rotina): trotes não seriam mais admitido e severamente punidos. Além disso, a chegada dos novos alunos deveria ser tranquila, sem gritaria e confusão, diferente de nossa adaptação.

Nos meus dois primeiro anos os alunos eram divididos em 5 Companhias, cada uma contendo 3 pelotões. Dessa maneira, os 22 oficiais-alunos eram:
  • O Comandante-aluno (01)
  • O Imediato-aluno (02)
  • 5 Comandantes de Companhia (Comcia)
  • 15 Comandantes de pelotão (Compel)

Contudo, além da mudança do COMCA, uma mudança estrutural ocorreu. Foi criada a sexta companhia, talvez para ficarmos mais adequados à forma como era a organização na Escola Naval. Sendo assim, com a nova companhia, surgiram mais 4 vagas para oficial-aluno (OfAl), que passaram a totalizar os 26 primeiro colocados.

Eu havia sido o 22o e por conta disso seria o Comandante do 3 pelotão da quarta Companhia. Isso era excelente para mim: eu tinha feito parte da 4a Companhia no primeiro ano e seu responsável era o Tenente Alexandre, que como já comentei em um post, era boleiro e eu tinha me tornado peixe dele nos dois anos anteriores.

Tudo acertado na primeira semana, partimos para o CIAGA para receber os novos alunos. Foi uma experiência ímpar retornar àquele lugar, dessa vez como caçador e não como caça. Nessa posição, você já procura pelas presas que destoam no grupo de ovelhas. Observamos os adaptandos se despedindo de seus familiares antes do embarque.

No meu ônibus estava o Tenente Reis, o Mario Gomes e eu. O Mário Gomes era mais que uma “mãe”, era uma “avó”, então não pretendia de maneira ser escroto. Mas nem precisava ser. Eu tinha sido criado na Divisa de Santos, era acostumado a zuação maldosa dos amigos, então não perderia a oportunidade de proporcionar aos novos alunos muitas das “agradáveis” experiências que passei durante minha própria adaptação.

E nas boas vindas durante o embarque, repeti o mesmo que tinham feito comigo 2 anos atrás. Com o ônibus ainda no CIAGA, eu disse aos adaptandos: “Vamos lá pessoal, cumprimentem seu familiares, você são motivo de orgulho!”. Quando o ônibus saiu da Organização Militar e virou na Avenida Brasil, a voga logo mudou, falei em tom agressivo: “Ok pessoal, agora vocês podem fechar as janelas. Eu sou o oficial-aluno 3022 Nuccitelli, quem esquecer disso está fudido. A partir de agora você tem direito a falar apenas 3 coisas: Sim Senhor, Não Senhor e Quero ir de baixa”. Logo após essa boa vinda, carteei um e perguntei: “Qual meu número e meu nome?”. Gaguejou e eu logo esculachei: “Você está de sacanagem aluno, não limpou essa merda dessa orelha, eu acabei de falar isso”.

Vendo isso, alguém riu. Todos adaptandos usavam uma roupa padrão: calça jeans e camiseta branca de algodão. Mas não o Biro Biro, aluno que riu. Ele usava uma camisa azul com lista laranja horizontal. Ele tinha o cabelo igual o do antigo jogador do Corinthians e por isso o apelidamos assim. Então sentei ao seu lado e perguntei se estava achando engraçado. O rebarbado respondeu que sim e eu anotei o nome dele. Falei: “Você vai retirar esse sorriso da cara rapidinho”. Ele continuou rindo. Então fiz a promessa: “Ok, você já está convocado para todos pelotões elétricos durante a adaptação”.

Entreguei o livro “Nossa Voga” para o pessoal. Nele existiam informações sobre o CN e também os hinos que eles tinha que aprender. Já durante a viagem, os adaptandos iam cantando o hino do CN (colocar link aqui despois). Eu dando todo o “apoio” necessário para que eles cantassem cada vez mais alto.

Chegando no Naval, meu ônibus foi o último a entrar. Observei que meus amigos tinham “cagado” para a instrução da chegada tranquila ao CN. Não perdi tempo: “Todo mundo fora desse ônibus, quem for o último estará junto com o Biro Biro em todos os pelotões elétricos, só quero o último!”. Foi engraçado ver a turma correndo desesperada, tropeçando em mala, assim como havia ocorrido comigo.

Logo depois que levamos os alunos ao alojamento, o COMCA mandou reunir todo mundo e deu a maior mijada. Mas eu posso te falar que pra todo mundo aquela bronca valeu mais do que a pena.

No alojamento do primeiro ano, ficavam dois terceiro-anistas para manter a ordem. Eu gostava muito da idéia de liderar, por isso tinha estudado par ser OfAl. Assim, me ofereci para ficar como responsável pelo primeiro ano e convenci o Pirula a fazer o mesmo.

Durante as noites, ocorria o famigerado Pelotão Elétrico. Basicamente os adaptadores montavam uma lista com alunos lanceiros (lance é fazer algo errado) e a turma ficava fazendo Ordem Unida (marchar e movimento marciais) enquanto o resto podia descansar. Me lembro de passar em um deles e ver o Biro Biro, que como eu tinha prometido, já estava escalado desde o CIAGA. Perguntei para ele: “E aí Biro Biro, ainda com vontade de rir?” e a resposta foi imediata: “Não senhor”. O sistema fazia todo mundo se enquadrar rapidamente.

A adaptação seguia e a “integração” continuava. Tenho que confessar que eu era filho da puta, mas era engraçado, até mesmo para os alunos que estavam se ferrando. Me lembro de entrar no banheiro do primeiro ano e era aquela correria. Um monte de gente descalça nos chuveiros. Cara, era um banheiro comunitário para 230 alunos. Não pensei duas vezes: “Banheiro sentido!”. Coloquei a porra do banheiro todo em sentido, olhá que merda, um bando de macho no banheiro parado em posição de sentido. Perguntei: “Quem dos senhores urina na porra do box do chuveiro?”. Resposta em uníssono: “Ninguém senhor!”. Então argumentei “Mas eu mijo nessa merda todo dia. Seu porcalhões, quem está descalço, pode ir colocar a gueta (chinelo) agora, antes que peguem uma micose!”. A galera riu e foi colocar o chinelo. Eu seguia sempre essa linha: um filho da puta engraçado.

Lembro de outra vez em que eu estava com o mesmo uniforme do pessoal, o GDP, uniforme de educação física. Assim, era difícil me diferenciar dos boys. Eu tinha mandado todo mundo tomar banho e estava me dirigido a ala das camas. Passa um do meu lado dizendo baixinho para outro “Caguei pro Renzo, vou tomar banho não”. “Aluno sentido! Ta de sacanagem seu sujismundo, essa merda de alojamento já está fedendo e você não quer tomar banho, vai tomar banho agora!!!”. Cara, pra um moleque de 19 anos ter todo esse poder era muito foda.

Mas então uma mudança aconteceu. Por alguma razão, o pessoal tinha errado no cálculo das notas dos alunos. Ao perceber isso, uma nova classificação foi gerada. Eu passei a ser o OfAl 3025. Ou seja, faria parte da primeira Companhia, cujo responsável era o Tenente Anselmo, que não costumava ser muito agradável com os alunos.

Mas o pior não foi isso. Com a mudança, alguns companheiros deixaram de ser oficial-aluno. O pior caso foi o do Daniel Gama. Ele estava morando em Manaus com os pais e retornou só por conta de ser ComPel. Foi uma tremenda lambança que acabou me desmotivando e a alguns companheiros. A única coisa “boa” foi que descontamos a frustração nos primeiro-anistas. Eles já tinham decorado o número de todos ao alunos, e tiveram que redecorar tudo.

Mas a vida continuou. Certa noite eu e o Pirula estávamos batendo um papo e vimos uma sombra se dirigindo ao banheiro. Chegando lá, vimos um aluno e gritamos “Sentido”. Quando vi quem era, falei: “Grande Biro Biro!”. O Pirula sempre foi um cara tranquilo, mas não sei o que deu nele naquela hora. Ele perguntou pro Biro Biro: “Boyzão, você veio aqui dar uma barrigada certo?”. Quando ouvi ele fazendo isso, já logo entendi o que ia acontecer. Sempre ouvimos sobre um trote das antigas chamado “lavagem cerebral”: a turma enfiava a cabeça do aluno na privada e dava descarga. O Pirula prosseguiu: “Pode escolher a porra do banheiro mais sujo nesse banheiro”. Ele escolhei um e eu complementei a maldade: “Então, você vai dar a barrigada nesse banheiro, não vai dar a descarga. Quando acabar, nós vamos enfiar sua cabeça aí e só então daremos a descarga”. Cara, ele estava na posição de sentido nesse momento. Os olhos primeiro brilharam e a quando ele piscou, as lágrimas caíram. Com voz de choro, ele disse: “Senhor, por favor, não faz isso comigo não”. Obviamente que a gente não ia fazer aquilo. Primeiro porque a gente não era tão escroto assim. Segundo porque se alguém descobrisse, era expulsão na certa. O lance era todo era o terror psicológico. Mas então eu respondi: “Biro Biro, eu vou te acochambrar, mas isso vai ter um preço. A partir de hoje você vai se tornar o cara mais na marca (certinho) do seu ano. Eu vou te tirar dos pelotões elétricos, mas se você der algum outro lance, aí você estará fudido”.

Cara, eu olho para trás, lembro disso e penso: cara, que filho da puta de merda eu era. Por isso, gostaria de aproveitar o blog para pedir desculpas publicamente ao Biro Biro. Mesmo sendo eu muito novo, acho que isso não é desculpa para eu ter feito uma covardia dessas. O pior desse sistema de merda foi durante a visitação dos pais. O Biro Biro vem em minha direção, com sua irmã e mãe, me apresenta e diz: “Esse é o oficial-aluno 3025 Nuccitelli, ele que me ensinou a ser homem na Marinha”. Cara, me lembro de rir disso junto com meus amigos. Mas como um sistema pode alienar as pessoas dessa maneira, era para aquele cara me odiar e no entanto, ele achava que eu tinha feito bem para ele. Ele nunca deveria ter pedido para não fazermos aquilo, ele deveria ter nos denunciado na hora. Mas enfim, o sistema todo o faz se conformar, seguir ordem quase sempre sem questionar. De toda forma mais uma vez, peço desculpas pela imbecilidade.. Felizmente, depois disso tudo, até ficamos amigos durante o restante do ano.

Mas então a chegou segunda semana da adaptação. Nesse período era comum alunos do terceiro ano oferecem aos primeiro-anistas itens “marafeiros”, ou seja, itens que permitiam aos alunos "se mostrarem" como militares, principalementa para a mulherada. Como empreendedor, eu me adiantei e fui o primeiro a ofertar aos alunos uma camisa marefeira do bad boy fardado de 5.5 abraçado com uma menina. Ninguém era obrigado a comprar, e deixamos isso bem claro. A galera comprava, como eu comprei no primeiro ano, porque realmente os itens eram legais de se ter. Foi um sucesso.

Mas havia um “pequeno detalhe”: comércio a bordo era proibido. Mas a atividade era padrão e ocorria não só na adaptação. Durante o ano tinha gente que vendia carteira da Marinha, sapato, mala com símbolo da aviação navao e até havia a “indústria do chocolate”, com a qual a gente estimava que o Anatoli, da 98, deveria ter feito muito dinheiro.

Nos últimos dias de adaptação, as coisas ficavam mais tranquilas. Os adaptadores já tinham gastado a energia nos primeiros dias e realmente começávamos a fazer amizade com os alunos. Nesse clima, fazíamos uma brincadeira: uma votação entre os adaptandos para elegerem categorias de adaptadores:
  • Quem foi o mais filho da puta
  • Quem foi o mais mãe
  • Quem era o mais retardado

Eu fiquei em segundo na votação de mais filho da puta, perdi para o Beyler. Mas o clima estava tranquilo e teve gente até me sacaneando: “Ele coloca essa bronca de filho da puta mais parece o menino da bala Juquinha” . Durante essa descontração, eu avisei para turma da qual era responsável o mesmo que o Gomez Muniz tinha alertado 2 anos atrás: “Então gente, tenho uma notícia boa e uma ruim. A boa é que a adaptação está terminando. A ruim é que esse foi o período fácil. Se vocês acharam que fui filho da puta, vocês estão enganados. Você verão que eu sou um cara tranquilo, nem vão perceber minha presença durante o ano. Isso porque aqui na adaptação estão só os alunos gente boa da minha turma. Quando chegar o restante da turma, aí sim será um inferno”. Um aluno perguntou: “Senhor, você está brincando né?” ao que respondi: “Infelizmente não”.

E realmente, quando as aulas começaram eu realmente já tinha ficado parceiro do pessoal e não aplicaria nenhum trote durante todo ano. Isso por algumas razões: já tinha tirado todo o “recalque” na adaptaçao e também porque durante os trotes do início do ano muita gente era pega com a boca na butija e punida com finais de semana a bordo ou até expulsos. Fora isso nas experiências com o novo COMCA já percebemos que agora não haveria a moleza de antes, o bicho realmente ia pegar.

No primeiro dia de aula, mais uma lambança ocorreu. Quando refizeram a classificação, erraram novamente. Então, durante a primeira parada, refizeram a lista. Mais alguns amigos que passaram a adaptação inteira como OfAl deixaram de sê-lo e isso foi muito triste. Eu passei a ser o Oficial-Aluno 3024, me tornando o comandante do 3o pelotão da 6a Companhia. Apesar disso, a vantagem foi que o responsável dessa companhia era o então Tenente Serafim, um dos oficiais mais íntegros e vibrões que conheci no CN.

Enfim, as coisas continuavam muito bem, mas isso iria mudar no segundo semestre. Mas isso fica para o próximo post...

Abs,

 Renzo Nuccitelli
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