segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quando você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 3

No início de 2001 começaria o segundo ano de Colégio Naval, o melhor dos 3 anos. Isso porque, como segundo anista, você não leva trote da turma de cima e não pode dar na turma de baixo. Sendo assim, os estudo passa a ser a única preocupação. De resto, é um tempo para se integrar mais com os companheiros de turma e aproveitar o lado bom do Colégio.


Uma transformação interessante nesse ano é que você começa a achar engraçadas as situações difíceis pelas quais passou no ano anterior. Inclusive já começa a fazer planos sobre o que fará quando chegar ao terceiro ano. No início das aulas você fica apenas observando o movimento, rindo do processo de “integração” dos novos alunos com seus veteranos.


Além das divisões oficiais por anos, existia uma divisão informal entre os alunos em 3 grandes categorias: cariocas, aratacas e paulistas.


Os cariocas são os residentes no Rio de Janeiro e que todo fim de semana retornam às suas casas. Deviam compor 90% do total de estudantes. Os alunos do terceiro ano contratavam os chamados “especiais”, ônibus fretados para fazer a viagem RJ - Angra. Esse também era um grande teste para os alunos do primeiro ano, pois as brincadeiras no percurso eram constantes: “capacitômetro” (colocar o máximo de alunos dentro do banheiro do ônibus), “corrida de verme” ( colocar dois boys, um em cada coluna de poltronas, jogá-los por cima das poltronas e ver quem chegava primeiro nas primeiras poltronas) e alguns outros trotes. Mas de toda forma, quem conhece um carioca sabe que o RJ é sua terra sagrada e como a distância é pequena, poder retornar era um privilégio.


No extremo oposto estavam os aratacas, cerca de 5% dos alunos. A esse grupo pertenciam os oriundos de estados longíquos: Ceará, Pará, Brasilia, Rio Grande do Sul, entre outros. Esses normalmente só retornavam para casa durante o período de férias. Ás vezes iam pra casa de amigos no RJ, mas muitas vezes aquartelavam no fim de semana. Os aratacas faziam parte do grêmio de residentes, tendo um espaço próprio de convivência com TV a cabo e, principalmente, um telefone que utilizavam para ligar para a família e namoradas. Não parece muito ter um telefone hoje em dia, mas em 2001 os celulares ainda não eram tão comuns. No Naval existiam somente 3 orelhões para 600 alunos, então ter um telefone exclusivo era um luxo.


Por fim, existia o grupo dos Paulistas, compondo os 5% restantes e cujos integrantes eram chamados pelos cariocas de “bizarros”. Gente que morava na Capital ou em cidades próximas, como Santos, no meu caso, e São José dos Campos. Nessa turma tinha gente que voltava todo fim de semana para casa e outros que aquartelavam de vez em quando. O grande bizu desse grupo foi que a partir de 2000, ano em que ingressei no colégio, passaram a pagar vale transporte. E nos anos de 2000 e 2001, pagavam independente de vc ir para casa ou não. Isso significava que quando você aquartelasse, economizaria uma boa grana. No meu caso, acho que ganhávamos um soldo de R$ 200,00 e meu vale transporte era de R$ 380,00. Ou seja, quase o dobro do meu salário.


Durante o primeiro ano, conversamos com o Gomez Muniz, então presidente do Grêmio de residentes, para saber se os paulistas que moravam em cidades mais distantes poderiam fazer parte do Grêmio. Ele aceitou a proposta. Então, além de fazer parte do grupo dos Paulistas, passei a fazer parte do grupo dos aratacas.


No fim de 2000 também passei a frequentar a casa da minha tia, na Tijuca, bairro da cidade do RJ. Eu dizia que conseguia aproveitar a parte boa dos 3 grupos: ganhava vale transporte de Paulista, frequentava o Grêmio de residentes como arataca e as vezes ia pro RJ como carioca.


Me dedicava bastante aos estudos, perseguindo o objetivo de ser oficial aluno. Fiz grande amizades nessa época, em particular com Silvio da Silva Rocha, vulgo Pirulito ou só “Pirula” para os mais chegados. Ele era meu “comesa” no segundo ano, o que queria dizer que ele compartilhava a mesa de estudos comigo em sala de aula.


Enfim, a vida estava uma maravilha: salário razoável para alguém que a família não tinha muitas condições, várias amizades, bom estudo e muita curtição. Era meu paraiso!


No início do ano minha equipe, de futebol, acabou tendo uma mudança de técnico. O Fofão, figuraça que treinava a equipe de natação em 2000, passou a treinar a gente. De início ele impôs uma política linha dura, principalmente com relação às brincadeiras com os calouros, o que ele não permitia para poder escolher melhor os novos integrantes da equipe. Mas com o tempo as coisas se acertaram e passamos e formar uma verdadeira equipe. Me lembro do nosso lateral esquerdo, Xavier. Vivia cheirando Sorine e todo mundo pegava no pé dele, dizendo que ele só jogava “cheirado”. Quando fazia besteira o Fofão já gritava “Xavier, paga 10!”. Era muito engraçado.


O Fofão fez a equipe tocar mais a bola. Além disso, como ele era da cidade, marcava amistosos com os times locais. Toda semana tinha um time que nos visitava para jogarmos no campo do CN. Não era o meu sonho de ser jogador, mas aquilo me fazia muito feliz.


Algumas vezes ele também conseguiu amistosos com o time amador de Angra dos Reis e no estádio da cidade. Era uma experiência bacana, mas sempre levávamos uma sacolada deles. A diferença de idade e técnica era muito grande. Mas de toda forma aquiilo nos preparava para jogos duros.


Em um desses amistoso eu fui protagonista de um caso caso engraçadíssimo. Naquela época existia um seriado da MTV, se não me engano, que se chamava “Homem Cueca”. Colocamos nosso uniforme branco e nosso preparador físico, gente boníssima, Sargento Baptista começou nosso aquecimento de sua maneira peculiar: colocava um funk da época e fazíamos algumas pseudo coreografias. Isso animava bastante o pessoal.

 Naquele dia havia alguns torcedores para ver o jogo, provavelmente familiares dos jogadores do outro time. Depois de uns 20 minutos, comecei a escutar a torcida gritando: “vai homem cueca”. Reparei que era para mim. O jogo foi parado e o Sgto Baptista, rindo, falou que eu tinha suado e o short estava transparente! O detalhe é que eu estava sem cueca...kkkk. Eu tinha mania de jogar sem cueca sempre, mas a partir daquele dia acabei com esse costume. Isso foi motivo de piada durante muite tempo….hehe


Mas por conta disso, desse novo ritmo de treinamentos, ao enfrentarmos o CMRJ, o jogo foi diferente do sofrível, mas memorável para mim, jogo de 2000. Eles estavam cheios de marra, a equipe de futebol cantava em todas as outras modalidades que iriam dar uma surra no futebol. Em uma das canções eles falavam que nem treinar precisavam, que só iam tomar Skol. No amistoso, abri o placar logo no início do primeiro tempo. Trocamos passes, driblei um zagueiro e enfiei um canudo no canto esquerdo. A goleada terminou em 4x0. Logo depois do jogo, cantamos uma parodia para do grito da equipe adversária, em ritmo de funk:


 - Eu não boto marra, jogo meu futebol
 - Só depois eu tomo Skol!!!

Um outro evento marcante foi a NAE (Naval - Aeronáutica - Exército). Essa era uma competição entre as escolas de ensino médio das 3 forças: Colégio Naval, Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) e Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx). A cada ano uma escola abrigava o evento e em 2001 era a vez do Naval. Próximo à competição, alunos de equipes tinham até refeição diferenciada. Com nosso novo treinamento, estávamos mais bem preparados e ganhamos o jogo contra o Exército, garantindo vaga na final.


No jogo contra a Aeronáutica, valendo o título, entramos voando. Recebi um lançamento e ia ficar cara-a-cara com o goleiro, aos 35 do primeiro tempo. Mas quando invadi a área com a bola dominada, pisei em um buraco e torci o tornozelo. Foi um dor muito grande. Mesmo assim a vontade era grande e continuei em campo até os 20 do segundo tempo. Mas eu estava sem condições de jogo e Fofão me sacou, colocando o Lamim jogar na zaga e também o Epilef. Acho que depois de uns 5 minutos que eles entraram, o Lamim recebeu uma bola no meio, na esquerda, e carregou quase até área. De lá mandou um petardo no canto direito do goleiro, indefensável. Conseguimos segurar o jogo e fomos campeões da NAE, depois de uns 10 anos que a equipe de futebol não ganhava. Depois do apito final, corrermos até o pier que ficava em frente ao CN e pularmos na água de roupa e tudo.


Fui para o RJ muito feliz mas a dor no tornozelo piorou e fui para o hospital. A torção foi séria e fiquei com gesso por um mês. Mesmo depois que tirei o gesso ainda demorei uns 6 meses para voltar a chutar com segurança. Nesse período também engordei, e toda vez que fazia besteira em campo o Fofão gritava: “Renzo, sua porca prenha”...kkk.


Além de estudar bastante e jogar bola, durante o ano passei a organizar uma excursão para Porto Seguro, idéia que tinha surgido após viajar com amigos para lá no fim do ano. Como comentei em post anterior, minha mãe trabalhava na cidade e conseguiu organizar a estadia e alimentação. Apenas o que fiz foi ligar os pontos e fretar um ônibus. No fim do ano, viajamos e passei a fazer “bico” de guia. Como a grana era curta, isso não poderia ter vindo em melhor hora: passei a entrar de graça nas baladas de Porto e até beber sem pagar na Passarela da Álcool. Enfim, o espírito empreendedor já existia em mim =D.


Quando retornei da viagem, fiquei sabendo da minha classifcação para o terceiro ano: vigésimo segundo colocado. Ou seja, tinha conseguido, mesmo que sendo o último da lista, me tornar um oficial aluno! Enfim, tudo ocorria bem e eu me sentia predestinado e merecedor de tudo de bom que estava ocorrendo


Contudo, apesar de toda essa alegria, nesses dois anos todos diziam que o Naval estava meio zoneado. Muito trote estava ocorrendo  e as punições não eram rigosas. Eu era um aluno exemplar, praticamente nunca tomei uma parte, nome que se dava ao documento de notificação de infrações. As poucas que tomei foram aliviadas. Se você leu os post anteriores, sabe que eu tinha virado peixe do Capitão Alexandre e do COMCA Cardoso Gomes. Mas o período de ser peixe acabaria no terceiro ano: O Capitão Alexandre deixou o Naval no início de 2002, acho que pra fazer fazer curso de Estado Maior. Além disso, o COMCA mudou também. Seria o então Capitão de Corveta Luiz Antônio, também conhecido na boca miuda como Calcinha por conta de seus trejeitos femininos, apesar de não ser homossexual (pelo menos acho que não). Inclusive descobri que ele era assim conhecido também entre os oficiais, há pouco tempo.


De fato o comando não estava satisfeito com situação e o novo COMCA tinha uma fama de ser linha dura, para não dizer um palavrão que começa com a letra f. Apesar de toda essa mudança política, eu tinha na cabeça que eu era “o cara”. Tinha conquistado tudo o que desejava até então. Tudo era uma questão de esforço e competência e o mundo era para mim um lugar justo que me premiava por minha obstinação e esforço. Mas foi nesse terceiro ano, em 2002, que eu descobriria que a arrogância, aliada ao ímpeto e ingenuidade de um jovem de 20 anos, é uma mistura que só pode acabar mal.


Esse seria o período mais difícil de minha vida e que eu considero ser o momento em que deixei de ser um menino para virar homem. Mas o restante da história ficará para o próximo post. Por enquanto, ficamos com algumas fotos do período no fim do post.


Abraços,
Renzo Nuccitelli



Equipe campeã da NAE em 2001
Em cima, da esquerda para direita: Fofão, Feres, Frambach, Rodrigo Almeida (Peri), Xavier, Guede de Castro, Lamim, Malcher, Martino, Pirulito, Thiago Barros (TB) e Capitão Alexandre.
Em baixo, da esquerda para direita: Marcelo , Felipe Soares (Epilef), Sousa, Sobreira, Melo, Tadeu, Gabriel Moraes (Carudinho), Eu e Sargento Baptista

Axe Moi na excursão de 2001 para 2002. Da esq. para dir: Veras, Pizzo, Butterfly (namorada do Pizzo...rs), Pimenta, Leandro Goulart e Eu

Almoço da dona Amanda, da esq, para dir: Eu, Spranger, Alan Viana e Rodrigo Gama à frente.


Retorno de Porto, Da frente para trás: Rodrigo Baptista, Roberto Alves, Rodrigo Pimenta, Eu e o Curió

Eu, Baçal no meio e o Jardel



Da esq, para direita: Solange, Amanda, Pirulito e eu no meu aniversário de 19 anos
Eu e minha mãe em Maringá
Eu e minha tia Solange na visitação dos Pais durante o período de Adaptação em 2001





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