segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Quanto você Quer, o Universo conspira em seu favor - Parte 6


Algumas vezes o Universo resolve testar a sua resiliência, e foi isso que aconteceu comigo no ano de 2003. Eu terminei o último post dizendo que ao chegar em casa, minha mãe só me apoiou. Mas apesar disso, foi uma noite extremamente mal dormida. Eu simplesmente não consegui assimilar a expulsão.

Mas eu não ia sair sem lutar. Entramos em contato com a Solanger, tia do Bruno, para vermos como seria para entrarmos na justiça. Eu liguei para muitos tinham sido também “licenciados a bem da disciplina”. Os que quiseram participar da empreitada foram: Máximo, Jurandir e o Rodrigo. Engraçado que o último já estava conformado com a situação mas, por alguma razão, ele mudou de ideia e quis entrar também na briga, para minha sorte.

Contamos à advogada o ocorrido e eu tinha certeza que a justiça seria feita. Dois alunos da turma 99, um deles o Ericsson, tinham conseguido reverter suas expulsões por conta de trote violentos um ano antes, e isso nos dava confiança. Afinal, se nem trote era o que tinha nos expulsado, lógico que conseguiríamos reverter a situação. Apesar disso, precisávamos de um plano B.

Foi então que o Jurandir sugeriu fazermos cursinho para escolas militares. Ele tinha comentado que na Tijuca havia pelo menos 4 deles: Planck, Roquette, Ponto de Ensino e PH. Durante o Naval eu tinha pensado em fazer engenharia, então achei uma boa, já que os cursos preparavam para IME e ITA. O problema é que eu não tinha dinheiro para pagar os cursos.

Não bastasse isso, durante aquela semana eu descobriria que também não teria onde morar. Durante o ano de 2002 eu estava indo tanto para a casa da minha tia que passei a ajudar no aluguel. Como não podia mais colaborar no fim mês, seria impossível continuar na minha tia. Foi difícil não poder contar nem com a família num momento delicado.

Mas então começamos a procurar os cursos e fazer provas de bolsa. Conseguíamos no máximo 20% de desconto. Quando íamos conversar sobre a mensalidade e falavam do desconto, eu perguntava quando daria a mensalidade: “Vai ficar apenas R$ 600,00”. Eu fazia sempre o mesmo discurso depois dessa notícia: “Eu fui aluno do Colégio Nava, era o 24o da minha turma. Portanto, vou passar nos concursos, independente de qual seja. Só que ainda não tenho nem lugar para morar no RJ, então não consigo pagar esse valor, o que é possível de se fazer?”. Aí eu sempre ganhava um “super desconto” de 30% ao qual eu sempre ria e falava: “Acho que você pensa que estou brincando quando digo que não tenho nem lugar para morar”.

Mas enfim, ficamos indo e voltando em cada curso tentando descontos maiores. Nesse processo, acabamos encontrando o Haikal, que desde o terceiro ano de CN já tinha decidido fazer IME/ITA. Ele conseguiu uma boa promoção no Ponto de Ensino (PEnsi): ex-alunos do CN pagariam a matrícula e teriam 90% de desconto na mensalidade. Mesmo aquele valor de R$ 60,00 eu não sabia como iria pagar, mas pensei que isso seria o máximo que conseguiríamos. Aquilo foi uma festa. Teve gente que nem era do CN, tinha apenas feito curso Martins com a galera em 99, mas mesmo assim conseguiram também o desconto. Enfim, acho que o PEnsi ainda estava em seu início e devia ainda ter muita vaga ociosa.

Nessa época de negociações eu me aproximei bastante do Rodrigo. Como ele morara longe e eu tinha carro, a gente sempre ia junto procurar pelo curso. Então começamos a frequentar juntos o PEnsi e por conta disso, eu estava dormindo na casa dele. Minha mãe também estava dormindo lá, mas já estava procurando um emprego de doméstica onde dormisse no emprego e, assim, pudesse pagar o meu curso. Vê-la tendo que fazer isso naquele período da vida foi uma barra.

Mas então na quarta-feira recebemos uma ligação da Denise, dona do Roquette. Ela falou que tinha conseguido uma bolsa. Perguntei quanto ficaria, ela respondeu R$ 100,00. Nós tínhamos assistido a uma aula do Roquette, justo a de química do Cesar Pereira e, por conta disso, achávamos que o Roquette era melhor. Mas enfim, o PEnsi estava mais barato. Eu respondi que passaríamos lá no dia seguinte para conversar.

Me lembro que o Rodrigo não queria nem ir no Roquette. Mas eu insisti. Disse que a Denise tinha sido muito legal e atenciosa com a gente, então ela merecia uma satisfação. Na hora do almoço, fomos ao Roquette. Ainda no caminho lembro de conversarmos, em tom de piada: “Já pensou se a gente conseguisse 100% de bolsa no Roquette?” e demos risada. Mas ao chegarmos, a Denise foi direto ao ponto: “Olá meninos, eu tenho uma super oportunidade, vocês poderão estudar no Roquette sem pagar”. Estávamos meio ressabiados com as merdas que tinham ocorrido, então eu falei “100%? não vamos pargar nada? Sem taxa de material, sem mensalidade, nada?”. Ela respondeu positivamente. Mesmo assim, falamos que iríamos pensar, afinal, já estávamos no outro curso.

De noite nos reunimos e conversarmos com nossos pais. A minha mãe e a do Rodrigo apenas falaram para escolhermos o que achássemos melhor, enquanto o pai dele, o seu Gama, achava melhor continuarmos onde estávamos. Nós queríamos ir para o Roquette, mas achávamos sacanagem sair do PEnsi depois de iniciar as aulas. Mas, no fim, não tínhamos assinado nenhum contrato, então acabamos indo para o Roquette. No outro dia já trocamos de curso. Chamamos o pessoal que estava no PEnsi, mas ele preferiram não mudar.

O fato engraçado que fiquei sabendo um tempo depois é que a Denise tem um filho da Marinha que estudou junto com o então Tenente Anselmo, a quem ela conhecia pessoalmente pois os dois eram amigos. Então ela perguntou a ele sobre nós e ele passou nossa “ficha suja”. Ela disse que no contrato que fez com a gente, poderia nos tirar do curso se tivesse qualquer problema disciplinar. Depois de uns seis meses ela conversou de novo com o Anselmo e disse “Anselmo, tem certeza que o Renzo e o Rodrigo era de quem você tinha falado? Os dois estão super bem no curso, nunca deram qualquer problema, realmente não parecem nem de longe os demônios que você falou”. Ele só respondeu: “Vai confiando na carinha de santo deles.”

De toda maneira, pelo menos alguma coisa deu certo nesse período. Mas não foi só isso. Sabendo da nossa situação, a Sandra, mãe do Rodrigo, me chamou para conversar: “Renzo, você vai morar aqui em casa. Mas eu não estou te fazendo nenhum favor, eu sou pragmática. Você vai morar aqui para ajudar o Rodrigo no estudos”. Novamente, depois do Major Romão, pessoas que eu mal conheciam estendiam a mão para me ajudar. Sou muito grato a todos: Roquette, Denise, Sandra e Seu Gama.

Então estava resolvido o plano B, eu moraria na casa do Rodrigo e estudaria no Roquette. Mas paralelo a isso, o processo contra a Marinha seguia. E isso fazia com que não focássemos 100% nos estudos. Em janeiro, tivemos quer ir no CN para pegarmos alguns documentos, principalmente nosso diploma de segundo grau, que seria necessário nos vestibulares. A ideia era também conseguir o Regimento Interno (RI), para podermos pautar melhor nosso processo. Então fomos eu, Rodrigo, Sandra e minha mãe para Angra dos Reis.

Ao chegar lá, o Tenente Serafim nos recebeu em sua sala. Eu falei para ele que precisava de um exemplar do RI do CN, mas ele disse que não poderia nos dar um. Eu pedi então que me emprestasse para tirar xerox dentro da unidade mesmo, ao que ele também respondeu negativamente. Mas então ele saiu da sala, e tinha um RI sobre a mesa. Ficamos na dúvida se ele tinha deixado ali de propósito ou não. O fato é que eu peguei o RI e minha mãe colocou na bolsa. Ela tremia igual vara verde, então eu falei para sairmos e deixarmos o RI no carro (Serafim: depois me manda uma msg se você deixou esse RI lá de propósito ou se você sequer deu falta dele....rs).

Com o documento em mãos, demos continuidade ao processo. Com ele, vários elementos do Conselho de Ensino foram questionados, principalmente no que dizia respeito ao direito de ampla defesa. Dentre as ações que tomamos, uma delas foi pedir a ata da reunião da votação dos oficiais. Foi interessante ter acesso a esse documento.

A ata descrevia que no início do reunião, cada oficial falava sua opinião sobre o aluno. Só depois de ouvir todas, eles votavam. Todos que foram “absolvidos” estavam nessa primeira leva. Mas a partir de um certo momento, mudaram o procedimento: o oficial falava o que pensava do aluno e depois já votava, sem ouvir as opiniões dos demais. Mas o que intrigou a todos foi ver o resultado da votação. Em favor de minha permanência, votaram apenas o Serafim e o Lincolm. Engraçado é que eu não tinha muito contato com o último.

Mas o fato mais intrigante foi saber que o médico Oscar Passos votou contra praticamente todo mundo. Isso porque logo depois da votação, ele tinha falado que achava uma injustiça o que tinha ocorrido e que deveríamos colocar na justiça. Mais do que isso, tinha dito que tinha votado em favor de todo mundo. Eu até hoje não sei a razão disso. Isso porque eu já tinha tido contato com ele, como escrevi em outros posts, e me parecia um cara bacana. Mas mais do que isso, eu acredito em toda filha da putagem no mundo, mas em geral, a “judaria” vem acompanhada de algum ganho pessoal. E nesse caso, o Oscar não tinha nada a ganhar mentindo pra gente. Eu só enxergo duas explicações lógicas para isso:
  1. O documento que tivemos acesso foi forjado, tendo sido alguns oficiais obrigados via assédio moral ou ameaças a assiná-lo.
  2. Realmente o Oscar Passos era o maior duas caras que eu já vi na minha vida. Nesse segundo caso, isso o tornaria pior que o Calcinha, pois esse pelo menos deixava claro o curso de suas ações. Se um dia o Oscar ler esse post, eu gostaria de conversar, por conta da curiosidade, para saber o que houve.

Outras coisas interessantes ocorreram. O Tenente Anselmo disse na reunião que eu era conhecido por dar trotes nos alunos, e que por isso não deveria ir para EN. Enfim, depois de ler esse documento eu fiquei muito puto. Escrevi uma carta com umas 20 páginas contestando todos os pontos que li na ata. Por exemplo, nesse do Anselmo eu contestei, mencionando o RI, que se ele sabia que eu dava trote e não fez nada, ele teria prevaricado por não me dar uma parte pelos ocorridos. Ou seja, se sabia dos trotes, não deu parte de ocorrência porque? Por acaso tinha uma simpatia por mim? Fui ainda mais além, e joguei toda merda no ventilador que eu sabia, como o caso do Calcinha em Barbacena, durante a NAE, saindo na “night” e dando idéia em meninas de 20 anos, enquanto estava com esposa e filho recém-nascido em casa. Fiz infinitas cópias dessa carta e mandei para todos militares do CN. Acho que na minha ânsia de justiça, acabei misturando as coisas. Mas tenho a consciência tranquila que nessa carta não escrevi nenhuma mentira.

O outro motivo da escrita da carta era servir também de base para o processo. Depois de acessar o documento sobre a reunião, eu tinha ainda mais certeza que a justiça seria feita. Mas para podermos construir um caso forte, precisaríamos desfazer a má imagem que os oficiais haviam descrito no documento contra nós. Então pensamos e montar um abaixo assinado com a participação de nossos amigos de turma. Montamos um texto em que eles assinariam atestando que éramos bons alunos e companheiros, que não tínhamos graves problemas disciplinares. Mas foi aí que eu recebi um dos mais duros golpes.

Levamos o documento à Escola Naval. Cheguei naqueles que eu considerava mais chegados. Afinal, eramos uma turma, quase irmãos, como todos diziam. Mas é na hora que a bomba explode que você testa quem é ou não seu verdadeiro amigo. Todos os meus “irmãos” mai chegados não assinaram o documento, com medo de sofrerem represálias futuramente. Aquele foi um chute no saco muito forte na época. Eu lembro que conseguimos apenas algumas assinaturas de amigos do Rodrigo e do Alan Viana, que não era nem muito chegado a mim ou ao Rodrigo. Eu sai da EN arrasado. Mas haveria ainda mais uma experiência que, unida a essa, me fariam mudar completamente a visão de mundo.

Depois de uns 3 meses nessa batalha, chegou o round final: o processo chegou à segunda instância e seria julgado por um desembargador. O mesmo proferiu: “Eu até acho que vocês estejam corretos e poderiam voltar à EN. Mas se eu permitir isso, tenho certeza que minha decisão será revertida em instância superior e, mais do que isso, ainda poderei ser prejudicado por não votar o que esperam de mim”. Cara, aquela foi a gota d'água. Qualquer resquício de idealismo que vivia em mim morreu naquele momento. Cheguei a conclusão que só tinha filha da puta no poder e que eu deveria jogar o jogo como ele era. Ou seja, não lutar contra o sistema, apenas jogar o jogo. Ali nascia um lema que na época achei que era universal: “O mundo é mau”. Eu não acreditava mais nas pessoas, sempre esperava o pior delas, deixando para fazer justiça apenas quando eu tinha o poder para fazê-lo.

Hoje considero que a minha leitura estava equivocada. Ainda tem muita gente boa nesse mundo, eu fui ajudado por muitas delas no meu caminho, como já até comentei nesse mesmo post. Mas o fato é que, em instituições em geral, aprender a “jogar o jogo” continua sendo importantíssimo. Mais do que competência, no mundo das instituições o fator “relacionamento pessoal “é o preponderante para definir o quão fácil ou difícil será sua vida. Ele muitas vezes define quem vai ser promovido ou não, quem vai continuar na Marinha ou não. Mas foi só depois de todas essas porradas que eu aprendi isso.

E o momento de colocar toda essa merda para trás foi esse. Paramos então de pensar em voltar via processo e focamos no curso. Nesse meio tempo, enquanto ainda estávamos na batalha, lembro de o Roquette me chamar para conversar: “Renzo, o que é que está acontecendo? Você é um cara para ser primeiro do concurso, mas fica com essa merda de Marinha. Quem nasceu para ser cabeça não vai ser rabo nunca. Vou te contar uma coisa, nessa vida ou você serve a Deus ou ao Demônio. O que não dá é para servir aos dois ao mesmo tempo”. Enfim, ainda uso essa parábola até hoje para mim, ou para outra pessoas, no momento em que estou perdendo o foco.

Chegava então a hora de estudar sério. Estávamos sempre na turma 1, mas nunca entre os 25o primeiros, que tinham acesso a estudo adicional na parte da manhã, o chamado “clube do bolinha”. Depois de alguns meses, conseguimos entrar nesse grupo e focamos totalmente no estudo. Nesse período, fizemos boas amizades no curso: Trancoso, Jac, Raissan, Ingrid, Papel, Renard, Luis Flavio, Eduardo, Zé, Sérgio, Hélio, Alan, Leonardo e Leandro Loriato (vulgo Zigoto e Zigotinho...rs). Era um tempo bacana, mas também de bastante sacrifício.

A fórmula dos cursinhos preparatórios é muito simples: você estuda muito. Não tem essa de ser inteligente, de ser um gênio. O processo exige apenas dedicação e disciplina. E o professor Roquette era, e é, um grande executor dessa idéia. Ele sempre dizia “Faz o que mando e será aprovado”. Ou as vezes, em seus famosos discursos aos sábados, antes dos simulados, ele comparava o estudo ao treinamento de ginástica olímpica: “Por que vocês acham que a Nadia Comaneci era perfeita? Ela treinava muito, e treinava os fundamentos. Ó: parada de mão”. Cara, eu e o Rodrigo riamos muitos desses discursos.

Mais para o fim do ano o ritmo aumentou. Estudávamos no clube do bolinha das 9 as 11:30, voltávamos 13:30 e só saímos as 21 horas, de segunda a sexta-feira. Aos sábados estudávamos das 9 ao meio-dia e fazíamos simulados na parte da tarde. Era cansativo e estressante. Lembro que naquele ano inteiro, só só sai em apenas 4 fds, para ir tomar umas ou à praia. Engordei cerca de 15 kilos. Era comum alunos sem muita base terem que fazer 2 anos de curso para poderem passar no vestibular. Outros não passavam nem assim, se não levassem a sério.

O período de provas chegou. A primeira acho que foi da Escola Naval. Acabei ficando nervoso e mandei muito mal. Depois veio o IME. Nessa eu tinha ido melhor. Fiz também a UERJ, prestando para bombeiro. Nessa a gente sempre mandava bem, porque comparada às demais, essa era fácil. Ou como o Roquette gostava de dizer, limpávamos a bunda com ela...rs. Continuamos estudando para a última prova, que considerávamos mais difícil: o ITA. Mas na semana anterior a esse vestibular, era divulgado o resultado do IME.

Eu, Rodrigo e nossos pais no dirigimos à Praia Vermelha. Quando saiu o meu resultado, pensei: “fudeu”. Fiquei em 54o lugar na vaga dos militares. Sendo assim, apesar de estar aprovado, eu provavelmente não seria chamado, já que era comum que chegarem apenas até o 45o colocado. Fiquei feliz pelo Rodrigo, ele passou na EN e no IME. Mas não consegui ficar animado ao ponto de ir curtir o famoso rodízio no Porcão com todo mundo que passou, que foi patrocinado pelo grande mestre Rubião.

Foi engraçado ver o Rodrigo progredindo tanto, passando nos concursos, e eu não. Isso só mostrava o quanto a classificação de nossa época de CN não valia nada, já que eu era oficial aluno e o Rodrigo estava sempre no fim da lista. Em particular, durante o ano eu já tinha percebido que ele era mais inteligente que eu. Não sei até que ponto contribui ou não com a sua evolução. Mas pelo menos eu tinha a sensação de ter cumprido a minha missão com a Sandra, que era a de fazer ele estudar.

Mas diferente dele, eu não tinha passado em nada e já fazia planos para mais um ano de curso. Cogitava até mesmo me tornar Bombeiro pela UERJ. Afinal, não seria no ITA, logo o concurso mais temido, que eu passaria. Mesmo assim fui fazer as provas. Recordo da primeira: física. No ano de 2003 ela foi bem difícil, deve ter cortado um monte de gente boa. Como eu não esperava nada daquele concurso, eu estava tranquilo. Levantei a cabeça no meio da prova, dei uma olhada no sofrimento de todo mundo e pensei, rindo comigo mesmo “É gente, vocês que estão disputando essas vagas estão ferrados, essa prova está muito escrota. Ainda bem que eu só estou aqui me preparando para os vestibulares do ano que vem”. Ou seja, eu já tinha agasalhado fazer outro ano de curso, apesar de saber o tamanho desse sacrifício. Por conta disso, eu saia, como em todas as provas, rindo. Teve gente, amigo meu, como o Helio, que depois confessou que quando me via sair rindo, ficava puto, achando que só ele tinha ido mau. Acredito que eu tenha eliminado alguns concorrentes fazendo isso...rs.

Acabou a semana de provas, eu foquei em duas coisas: preparar mais uma excursão para Porto Seguro e armar um plano para fazer o Roquette no próximo ano. Minha primeira tranquilidade foi que a Sandra, mãe do Rodrigo, falou que eu poderia continuar morando lá. A segunda foi que a Denise também me garantiu a extensão da bolsa.

Contudo, ela me pediu para fazer o bolsão, pra eu testar como é que estava a prova. Depois de estudar por um ano, você fica afiado. No bolsão faltou apenas uma questão para eu fazer 100% de bolsa. Ou seja, realmente aquela era uma prova bem escrotinha, afinal, eles não podia ficar dando bolsas para todo mundo. O Roquette me viu saindo da sala o e me chamou: “Renzo, o que você está fazendo?”. Respondi: “Estou fazendo a bolsa Roquette, a Denise pediu para eu testar. Além do que, já server para eu me preparar para ano que vem”. Ele retrucou: “Você não quer o ITA?”. “Querer eu até queria, mas nem na Esolha Naval eu passei...”. Então ele profetizou: “Se você não tiver passado no ITA, eu te contrato de professor aqui do curso.”. Eu ri, e pensei: “Lá vem o Roquette com o discurso positivista dele. Já está querendo subir minha bola para eu me motivar para ano que vem”.

Fora isso, levantei com a Denise a possibilidade de abrir, em conjunto com minha mãe, uma republica para estudantes de outras cidades. Ela concordou e passamos a procurar o local. Encontrando uma casa que ficava na mesma quadra do curso. Ou seja, eu poderia morar ao lado, sem precisar enfrentar a Avenida Brasil todo dia.

Nesse período pós provas, o Rodrigo acabou conhecendo a Fernanda, de quem eu acabaria sendo padrinho de casamento alguns anos depois. Por conta disso, ele desistiu de viajar para Porto Seguro, na faixa, com todo mundo. Tudo estava programado para o próximo ano de estudo e eu agora só queria curtir a viagem, recarregando as energias para o próximo período de sacrifício.

No dia 23 de dezembro estou eu dormindo, acordo com uns tapas na cara. Abro os olhos, é o Rodrigo. Eu ia mandar ele se fuder e perguntar que merda era aquela. Mas aí ele já disse que tinha entrado na internet, que eu havia passado para ITA! Eu não sabia se ria, se chorava, se dava cambalhota ou se era um sonho. Fiquei mais que feliz! Não teria que fazer mais um ano ferrado de curso, iria para São José dos Campos no ano seguinte. Ou seja, um ano que só tinha dado merda para mim acabava de ficar bom em seu final. Aquela viagem para Porto foi uma das melhores da minha vida, aproveitei como nunca.

Mais uma vez o Universo conspirava em meu favor, me ensinando com duras lições sobre humildade, relações humanas e perseverança. Mas uma vez minha resiliência, meu “Querer”, era recompensada.

Enfim, assim termino esse conjunto de posts: Quando você “Quer”, o Universo conspira em seu favor. E como muitas vezes escuto em entrevistas, deixo a mensagem para você que está lendo: não desista de seus sonhos e objetivos. Persista e trabalhe que as coisas vão acontecer. Pode não ser exatamente como você espera, mas a caminhada sempre vale à pena e pode ter levar onde você nunca imaginou. Eu nunca pensei que acabaria me tornando engenheiro pelo ITA ao começar a estudar para o Naval em 99.

Abs,
Renzo Nuccitelli
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